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Daniele Pereira
Escrever é uma forma de me conectar comigo mesma e, através das palavras, alcançar o outro.
Textos
As Quatro Estações

Você nunca será a mesma pessoa de sempre. Tudo muda, e conforme você envelhece, o seu eu muda também. Já pensou se as pessoas não mudassem? Se as lutas, as perdas, as tristezas e as vitórias não nos transformassem, seríamos meros robôs. Acredito que as mudanças nos impulsionam, nos movem em direção a uma nova versão — uma versão melhor de nós mesmos.

Infelizmente, eu sei, nem sempre as mudanças são vistas como boas. Mas “não há mal que não traga um bem”, alguém me disse isso um dia, e depois de ouvir essa frase, aprendi a lição — acredite. Hoje sou uma nova versão de mim mesma: mais forte, mais confiante e muito mais otimista.

Tudo isso veio à tona quando eu estava no Café Center. Adoro o café de lá; o ambiente é aconchegante e convidativo, e o sabor, uma delícia. Eu aguardava minhas amigas — fazia tempo que não nos víamos — e, enquanto esperava, saboreava meu café lendo O Adulto, de Gillian Flynn, indicação de uma delas. Parecia que, naquele instante, só existiam o café, o livro e eu, tamanha era a conexão com aquele momento.

De repente, ouvi uma voz, de relance: “Você não é mais a mesma.” Continuei a leitura sem levantar o olhar, mas as palavras ecoaram em mim. O cérebro me rebateu, e a concentração se esvaiu. Já não acompanhava mais a trama da jovem que ganhava a vida com pequenas fraudes e dizia às pessoas exatamente o que queriam ouvir.
Aquela frase — “Você não é mais a mesma” — doeu em quem a ouviu. Em mim cresceu o impulso de interromper a conversa e dizer: Parabéns por não ser mais a mesma! Mas me contive. Não os conhecia, e, por mais que eu acredite na bondade das mudanças, sei que há quem não creia nelas.

Há pessoas que desejam viver apenas em uma estação — são inverno ou verão, 8 ou 80 — e, presas ao “eu sempre tenho razão”, acabam perdendo a verdadeira felicidade.

Compreendi então que a mulher ao meu lado estava em metamorfose. Estava se tornando alguém melhor, evoluindo, mas o homem que a acompanhava não admirava essa transformação. Ele queria que ela fosse como ele: uma única estação. Mas ela já tinha ido longe demais.

Percebi, pelo olhar, que aquela mulher acabara de sair do inverno. Suas noites haviam sido longas e frias, e a luz lhe faltava. No entanto, estava prestes a entrar na primavera — a estação mais florida do ano — quando os dias se alongam e o coração floresce. Logo perceberia que a própria companhia pode ser doce e leve, e então a borboleta que nela habitava voaria alto.

Depois da primavera, viria o verão. Sentiria o calor do sol acariciando-lhe a pele e descobriria que a luz é o seu lugar. Mesmo em dias nublados, a alegria lhe faria morada. E, por fim, chegaria o tempo da colheita. Colheria os bons frutos de todo o processo e, ao final, seria livre — livre para começar e recomeçar quantas vezes desejasse.

Eles estavam presos a esse dilema. Por mais que ele dissesse em voz alta, no fundo não aceitava que ela não era mais a mesma.
Em meio ao dilema da mesa vizinha, minhas amigas chegaram, e entre risadas e abraços, esqueci-me completamente do casal. No entanto, antes de sair, percebi que seguiram caminhos opostos — afinal, ela já não era mais a mesma pessoa de antes.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 15/02/2021
Alterado em 26/10/2025
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