A Dança de Maria
Era uma manhã de inverno, daquelas na qual o sol não derrama seus raios dourados sobre a terra. A relva que cobre o terreiro da casa de Maria continua repleta de orvalho, pois o astro-rei não o aqueceu. Como consequência, a penumbra que rege o acordar da manhã embala Maria, que dorme enrolada nas colchas que cheiram a sabão glicerinado Novo Reino.
Maria, que dormia tranquilamente, desperta do sono ao ouvir o canto da rasga mortalha na cumeeira de sua casa.
O sono tranquilo que a embalava recua e o coração pesa ao ouvir o pesaroso acorde sonoro da ave. Sua bisavó, quando viva, lhe contara que esse era um mau presságio: sinal que algo ruim acontecerá em breve. Não era de se estranhar que naquele momento, Maria sentisse em seu âmago a dor do porvir. Ela passa a mão no lado vazio da cama, na vã e tola esperança que seu marido estivesse ali para acalentá-la.
Totalmente desperta, busca o ar em seus pulmões, porém, a ação lhe custa, pois, o ar demora bastante para percorrer um trajeto tão usual. Forçou, forçou… embora tenha conseguido controlar a respiração, não ficou calma. Seu pensamento a levou ao filho e marido, cujas mortes foram repentinas. Ela se viu no pântano de angústia que é a mente, e nesse pântano repleto de aflição estava presa.
Sozinha, sente a ansiedade consumir e se apoderar dos seus sentidos. E é nessa atmosfera de medo e ansiedade que ela se levanta rapidamente. O pé grácil toca o chão frio e uma sinistra onda eletrizante se apodera do corpo dela. Através da janela do quarto, uma modesta e suave brisa dança pelo ar, como se quisesse roubar um beijo furtivo daquela que está atordoada. A sinestesia transcendental, que só ocorre no mundo das coisas ilógicas, toma forma e cor. Na atmosfera inebriante de calor, frio e serenidade, Maria se encontra imersa na sinfonia desses elementos.
Abre a janela. Enquanto isso, a sensação de pânico e medo que o canto da ave lhe proporcionou se transforma, conforme a sinestesia preenche o quarto. Os cabelos desarrumados se embalam dançando ao ritmo do vento do Norte, enquanto a cadência inunda o quarto, os olhos de Maria contemplam fixamente o horizonte.
A princípio, o sussurro do vento, modestamente, ecoa no ouvido de Maria desejos secretos. Uma carícia suave, delicada, feito pluma, percorre a pele exposta, como se o próprio ar estivesse apaixonado por ela, e se sentisse ansioso para explorar cada centímetro da epiderme morena.
Ela fecha os olhos e se entrega completamente à sensação. Deseja sentir mais; por isso, abre a porta e vai ao terreiro. Ali totalmente exposta ao vento, cada toque dele é um convite para se perder no momento de pura gratificação sensorial. O corpo de Maria, eriçado, se torna uma tela em branco, pronta para ser pintada pelos caprichos do vento, que desliza sobre ela como um amante habilidoso. Ela dança. Dança como criança seguindo o acorde sem passo certo, apenas segue o vento. Cada respiração, cada suspiro um prazer contido, enquanto ela se entrega ao êxtase de estar completamente viva, dançando ao vento.
E assim, naquele instante efêmero, Maria se funde à natureza. Seu corpo modelado torna-se uma extensão do mundo, uma manifestação física do amor e da beleza que a cerca. Cada passo é uma ode eternizando o dançar ao vento. O sol rompe as nuvens, seus raios dourados cobrem o terreiro e Maria sente a energia renovada fluindo do seu interior. As preocupações de antes e os medos são erradicados e substituídos pela profunda sensação de aceitação e paz. O canto da rasga-mortalha, tão temida antes, é ressignificado.
E quando a noite finalmente cai, envolvendo tudo em seu manto de escuridão, Maria permanece imersa na lembrança do encontro íntimo com os ventos do Norte, pois naquela manhã, ela sentiu no sopro do vento, uma declaração de amor eterno.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 02/04/2024
Alterado em 21/06/2026