Run, rum,rum
Ela caminhava rapidamente pelas ruas. Não estava atrasada é que aprendeu no dia a dia, fazer as coisas às pressas. Cabisbaixa, andava com os ombros curvados para frente. Não era tristeza, era o medo de pisar em falso; cair; escorregar num embrulho de presente deixado vergonhosamente por alguém como já aconteceu antes.
Em seu fone de ouvido tocava Run do BTS e assim, a cada batida, um passo e outro, a música, ela e o sol se fundiram como se fossem apenas um. Seguia ao som de rum, rum, rum, até que sentiu a estranha sensação de ser observada.
Levantou o olhar e viu uma mulher a encarando como se fosse algo exótico. Seria o cabelo? Pensou... a roupa? Não sei. Sorriu constrangida por não decifrar o olhar da mulher. A frente notou que um grupo de homens no posto de gasolina, a observava. Estavam atentos e pareciam tão despreocupados de tudo, em plena quinta-feira. Quando passou por eles, o grupo em coro a saudou com um bom-dia. Com a precisão e entonação do grupo, ela se assustou, mas logo se recompôs. Fez apenas um aceno com a cabeça e seguiu.
Ótimo, suspirou! O sinal fechou. Run estava estava quase finalizando quando seguiu para ultrapassar os carros parados. Entretanto, um, cor de vinho, percebendo que ela iria passar a frente, acelerou um pouquinho, impedindo-a de seguir. Ela parou. Sentiu o sangue ferver; cruzou os braços; bateu o pé; esperou.
O vidro fumê desceu aos poucos. Uma ansiedade estranha a sacudiu, seria um conhecido, alguém próximo? Não. Ela nunca havia visto o condutor, um homem na casa dos 40, barba por fazer, cabelos ondulados desalinhados. Ele tirou as mãos do volante, passou os dedos por entre os cabelos e a dirigiu um olhar triangular. Contrariando a expressão, ela devolveu um olhar fulminador, no entanto, os óculos escuros impediram-no de ver as faíscas do olhar. Do nada, um sorriso enigmático surgiu nas feições do homem, deixando-a confusa.
— Ei, linda! Enquanto caminhava, quase pude ouvir Pretty Woman.
O sinal abriu. Os carros buzinaram ansiando seguir viagem. O homem deu uma piscadela e seguiu. A mulher sem acreditar sorriu indignada ao som de Non, je ne regrette rien, de Édith Piaf. Vai entender... pensou ironicamente.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 12/12/2024
Alterado em 01/03/2025