Enquanto durar o café
— Você tem razão. Mas, se me permite dizer, sua visão é equivocada, só ainda não sabe disso.
— Como pode dizer que estou certa, mas equivocada?
As duas mulheres se entreolham, buscando algo que nem elas sabem nomear. Meio sem jeito, ambas buscavam uma postura confortável, porém sem sucesso. A primeira suspira, impaciente. Quer encerrar a conversa, mas sente que ela ainda vai se arrastar por um tempo. Antes de continuar, percebe que precisa de uma pausa.
— Seu café... — aponta com um gesto leve. O vapor já se desfaz.
— Ah, sim, o café. — Meio aérea, a moça de vermelho toma um gole sem graça, como quem esqueceu o sabor. A mulher de cachos se empertiga, passa os dedos nos cabelos e lança um olhar de soslaio, firme. Enquanto a outra finge segurar a xícara, disfarça o desconforto do momento, um momento meio desajeitado.
— Veja bem, eu já fui assim. Caminhava como você: olhos fixos no horizonte, buscando a linha onde o céu toca a terra. Mas quer saber a verdade? Enquanto sonhava com o que viria, tropeçava nas pedras do caminho. E, pior: não via as flores — nem os espinhos — que nasciam aos meus pés.
A conversa fica mais estranha e esquisita.
— Poderia ser mais clara? — há algo na voz da moça de vermelho que parece um pedido. Um pedido velado, meio dito, meio calado.
As duas se calam meio assim, sem jeito. O silêncio cresce como se tivesse vontade própria. Tentam dizer algo, mas os lábios tocam o vazio — e as palavras se perdem.
— Maturidade não tem nada a ver com idade. Você sabe disso, não sabe?
A moça de vermelho apenas assente. Baixa a cabeça, num gesto manso, e espera.
— Você está certa por ver sentido no que ainda não viveu. Mas está equivocada por ignorar o que está bem diante dos seus olhos.
A de vermelho a encara com olhos saudosos. Seus olhos marejam, mas ela se fecha como uma criança teimosa. Há uma barreira que não se rompe — ainda.
— A vida é um só dia, entende? Um só. Tudo acontece nele. Eu vivo aqui, no agora. O futuro... o futuro é só uma ideia. E você? Vive para o que ainda não chegou. Vive adiando, esperando, planejando. E quando não acontece, se frustra.
A moça de vermelho aperta a xícara com força. O café está morno agora. Ela a ergue, hesitante, e toma o último gole.
— É. Talvez você tenha razão.
A outra sorri, mas não diz nada. Só observa enquanto o tempo, como o café, esfria. E passa.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 09/07/2025
Alterado em 13/07/2025