O éter invisível das emoções
É triste... Carregar em sua própria derme o invisível mapa dos sentimentos alheios. Não é um dom, desses que se lê em grandes histórias. Soa mais como um peso, é uma invasão. A alegria dos outros, torna-se nesse mapa um perfume de lavanda cujos raios solares reverberam para a alma o cheiro floral e herbáceo, com uma doçura delicada. É suportável. Na maior parte das vezes, é contagiante. Entretanto, é nas sombras das almas que a sinestesia se torna, de fato um fardo.
Naquela tarde de burburinho, eu senti o cheiro denso, metálico, quase enferrujado, misturado com o mofo de coisas esquecidas. Fechei os olhos, mas o odor acre quase palpável pareceu preencher meus próprios pulmões, sufocando-me. Tombei um pouco para o lado, uma mão me alcançou, por pouco não cai. A palma pareceu demorar-se um instante a mais na minha pele, e naquele toque, o cheiro de sândalo reverberou em mim, um desejo quente, quase suplicante, intensificando o mapa de um jeito que eu não esperava.
Tive medo de encarar os olhos castanhos, geralmente os olhos revelam muito e eu estava atordoada demais para ter mais uma enxurrada de sentimentos. Preferi apenas sentir o amadeirado e quente cheiro. Mas quando a mão se afastou, a onda tenebrosa do cheiro acre me envolveu.
A multidão no burburinho continuava totalmente alheia ao que acontece no meu mundo, assim é na maior parte das vezes na qual a sinestesia ascende em minha pele. Se eu fosse corajosa, deveria ter segurado a mão e lido os olhos, mas preferi me abandonar sozinha no cheiro de chumbo que pesava diante da criança a minha frente.
Externamente, o barulho era intenso, mas internamente na criança não havia som. O cheiro de abandono, de vazio penetrou em meu coração como agulhas finas, inúmeras, milhares delas ao mesmo tempo, indo e vindo numa dor excruciante. Eu encarei. Senti, chorei.
Não identifiquei ainda um padrão. Não sei se é o desejo do outro de ser entendido, ou que seu segredo seja revelado. Só sei que SENTIR é uma drenagem constante. A acidez da raiva, o cheiro de borracha queimada da frustração, a eletricidade da ansiedade e às vezes o sândalo do desejo surge como se a minha própria pele fosse uma membrana porosa, absorvendo tudo o que flutua no éter invisível das emoções.
Preciso construir muros, barreiras invisíveis para me proteger. Mas como se desliga a sensibilidade quando ela é a própria essência? Ao mesmo tempo uma lente para uma beleza oculta e uma condenação à exaustão da alma. Naquele dia, eu estava cansada, queria aspirar apenas o aroma das flores e do café, livre do fardo de carregar o peso invisível de corações que não são meus.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 31/07/2025
Alterado em 01/08/2025