A deusa Pia
Não é propriamente uma deusa. Não tem templos dourados nem fiéis ajoelhados em reverência. Sua morada é simples, fria ao toque, com um eco constante de água que cai como mantra. Mas, para muitos, a pia é um altar — lugar sagrado onde o caos encontra redenção.
Ali, tribos se reúnem. Algumas chegam cedo, carregando as oferendas: pratos, copos, talheres e panelas que, até minutos antes, foram soldados em batalhas culinárias. Outras chegam de mansinho, apenas para lavar as mãos, como quem toca a água de um rio sagrado. É um ritual silencioso para alguns; para outros, um momento de socialização, de troca de olhares e de histórias.
No entoar desse templo de porcelana ou aço inoxidável, há um cântico invisível: o barulho da água correndo, o tilintar dos talheres, o sopro de quem seca a louça. Pequenas liturgias diárias.
Mas, no meio dessa paz líquida, há um corpo deslocado. Ele é aquele que, ao atravessar o corredor estreito, se sente constrangido. Para ele estar ali é um infortúnio, pois se vê obrigado a esbarrar nos fiéis da deusa. Sente-se intruso. Não veio oferecer nada, não busca a bênção da espuma e do sabão. Apenas precisa passar. E, ao fazê-lo, percebe que o ato mais simples — atravessar um espaço — pode soar como profanação.
Porque, no fundo, talvez toda deusa precise de seus ritos. E toda pia, mesmo sem consciência, exige respeito ao seu sagrado instante. No contexto dos adoradores, ela é necessária: o ritual diurno é uma fuga. Uma pausa para a vida respirar, mesmo que, às vezes, incomode quem apenas queria atravessar.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 06/08/2025