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Daniele Pereira
Escrever é uma forma de me conectar comigo mesma e, através das palavras, alcançar o outro.
Textos
Aqui Não, Nunca: Um Recado à Malícia
Deixo que as palavras escorram, ainda quentes do desgosto, como se a própria boca se enchesse de fel diante do comentário malicioso deixado sobre a minha mesa, essa escrivaninha que é extensão da alma, um território onde apenas o íntimo deveria morar. Há homens tão pequenos que a sua presença já não pesa: ela enoja. Um enjoo súbito, uma vertigem que sobe pelo estômago até encostar na garganta. São tão insignificantes que o corpo, instintivamente, responde com repulsa.

E no entanto, penso: não há criatura feita apenas de malícia. Sempre há um traço contrário, um gesto esquecido, um relance de humanidade que resiste em meio ao veneno da malícia. Contradição que sustenta a natureza humana — o composto de sombra e claridade, de cinza e clarão. Mas daí me pergunto: até onde devo conceder espaço a essa dualidade? Até onde me cabe compreender, quando a náusea se impõe antes mesmo do juízo?

Deverias ter sido meu mestre, não um peso nas lembranças. O nome que me deste — Darkiana — ainda ressoa. Sim, de fato, na época amei o contexto de mistério, a aura que me cercava como se eu mesma fosse personagem de uma fábula obscura. Mas tenho me afastado disso tudo, porque as pessoas mudam. Não me visto mais da mesma névoa, não caminho apenas por corredores obscuros.

Ser cronista não me autoriza a ser dona de todos os enredos — ainda que os escreva com a pretensão de abarcar a vida. Poeta fingidora? Sim, e talvez mais do que isso: uma guardadora de disfarces. Mas mesmo que o texto fosse espelho puro, mesmo que cada linha fosse minha carne exposta, isso não abriria brecha para tua invasão. Não te reconheço esse direito.

Na universidade, ergui muralhas de silêncio, pesadas como a da China, entre mim e qualquer sombra que tentasse cruzar meu espaço. Tu não atravessas. Tu não passas. E se lês, sei que lês — pois tua curiosidade doentia é mais forte do que tua própria máscara — então que esta seja a mensagem: guarda tua mente retorcida no lugar de onde nunca deveria ter saído. Fica aí, nas ruínas da tua própria insignificância.

Porque aqui, neste espaço que é meu, tu não cabes.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 31/08/2025
Alterado em 01/09/2025
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