A Palavra que Não Termina
— Vejam só como a escrita atravessa gerações. — Falo enquanto analiso poesias do período Barroco com os estudantes.
Alguns olham fixamente para a poesia tentando perceber as características do estilo no poema. Outros concordam com cada palavra que da minha boca sai.
Um olhar vazio fixa-se em mim, está longe, muito longe, o chamo pelo nome e ele se contorce do susto. Todos riem. Uma lá no final da sala olha para o lado, percebe algo minúsculo andando pelo chão. Um inseto? Quem sabe. Não me dou o trabalho de interferir, tamanha concentração, digna de um esgrime vencedor de Xadrez. Continuo a análise.
No meio da discussão, noto uma sobrancelha que se ergue, um olhar errante nasce, como se vagasse de um canto a outro, procurando as palavras para perguntar algo, ou quem sabe, procura no vazio a peça master esquecida na memória. Fico empolgada com a expectativa da eclosão da pergunta, daquele tipo de pergunta que enche a alma do professor, fazendo-o falar por horas afinco.
— Professora... qual a palavra que a senhora acha mais bonita na língua portuguesa?
Meu rosto derrete. A pergunta cai no ar como uma pedra no lago fundo, e de repente dezenas de olhos se voltam para mim. Uns se arregalam em espanto, outros franzem o cenho em confusão, como se tentassem decifrar se aquilo tinha algum sentido. O olhar deles é uma mistura de perplexidade e silêncio, preso entre a incredulidade e o riso contido.
Engulo em seco. A quebra da expectativa, deixa minha garganta seca. Tomo um gole de água enquanto todos atentos esperam minha resposta.
Ninguém fala nada. O silêncio enche a sala curiosa.
— Hum... é o verbo... transcender.
O eco das vozes rompe o silêncio.
— Por quê? — vibraram. Respiro fundo.
— É simplesmente arrepiante quando escuto alguém pronunciá-lo: o “trans” nasce firme, como passos que deixam o chão; já o “cen” é brando, quase como um vento que passa pela pele; e o “der” se abre em eco, como uma porta que não se fecha. É uma palavra que não termina onde acaba — parece prolongar-se no ar, como se sua última sílaba fosse feita para desaparecer no infinito.
Os olhos fixam atentos e eu continuo...
Isso me lembra a segunda palavra... a segunda que eu considero mais bonita... sinestesia: essa é um sussurro, soa doce, como se pudesse ser sentida, degustada e vista. É a fusão da cor com som, sabor com toque e isso a torna musical e imaginativa.
Enquanto tentam processar... verifico a hora no relógio. A aula acabou a um tempo, com um sorrisinho, começo a guardar o material.
— Ei professora, sinestesia é uma figura de linguagem né?
— Sim. Inclusive é tema da nossa aula de Recomposição, até a próxima.
A voz dos olhos brilhantes se ergue:
— Ei, professora, na sexta posso dizer qual é a minha?
— Sorrio com a empolgação. — Sim, na sexta você me diz.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 08/09/2025
Alterado em 10/09/2025