À espreita
Entre e-mails e propagandas banais, um remetente desconhecido. Alguém que lê meus textos compartilhados online.
Assunto: nenhum.
Corpo da mensagem: só uma pergunta. Fria. Cirúrgica.
“Por que você não compartilha mais contos de terror?”
A frase parece inofensiva, mas tem o corte preciso de um bisturi. Abre. Expõe. Fere. Fico ali, encarando a tela, enquanto um frio antigo sobe pelas minhas costas.
É verdade: não tenho escrito mais sobre terror. Tenho estado atenta ao mundo desperto, onde o medo não se veste de fantasmas, mas de boletos, filas, conversas vazias, situações mal resolvidas... Tenho mergulhado nas miudezas da rotina, nesse cenário onde tudo parece seguro — mas nunca é.
Possa ser que não entenda... é que o terror não desapareceu. Ele apenas mudou de pele. No claro dos dias, sou inteira. Ou penso que sou. Mas à noite... à noite, outra presença se aproxima.
Ela — a narradora de terror — desperta com o escurecer, e assume o controle nos meus sonhos. É ela quem me arrasta por cenários que jamais ousei criar desperta, que me apresenta despedidas antes que elas aconteçam.
Ela prevê.
Ela adverte.
E o pior: quase sempre acerta.
Durante muito tempo, quando eu despertava, era ela quem ainda estava comigo. Forçava meus dedos ao teclado, ditava histórias como quem despeja veneno em doses literárias. Mas agora... ela não aparece.
Não escreve.
Não fala.
Ela observa.
Vejo-a nos cantos da memória, sentada na cadeira do canto do quarto, com aquele sorriso enviesado de quem sabe algo que eu ainda não sei.
Está à espreita.
De braços cruzados, paciente, recolhe cada fragmento do meu dia: o som insistente da torneira que pinga à noite, o carro que freia tarde demais no sinal, os risos intensos na sala, o cheiro de café na copa, os olhares que duram meio segundo a mais do que deveriam...
Ela está em silêncio.
Mas não foi embora.
E eu sei. Na primeira fresta de sono mal dormido, na próxima distração, ela vai voltar. Vai tomar de volta o corpo e a voz. Vai me fazer escrever por horas, com os olhos injetados, até que eu não saiba mais se o que saiu de mim é ficção — ou confissão.
Até lá, sigo fingindo controle.
Mas se eu demorar a responder...
Se meus textos mudarem de tom...
Se você sentir um calafrio enquanto lê...
Talvez...
ela tenha voltado.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 10/09/2025
Alterado em 11/09/2025