Sexta-feira no Empório
Há lugares que nos escolhem. Eu poderia dizer que escolhi o Empório Café, mas seria mentira. É ele que me encontra, quando preciso de silêncio e, paradoxalmente, de vozes. Lá me escondo a procura de um delicioso café.
O dia hoje foi intenso, cansativo e massante. Sextas-feiras têm esse gosto de promessa, de início e de fim ao mesmo tempo, e eu precisava me esconder no regalo de paz e sossego.
Entro no ambiente e, de imediato, o som do jazz me acolhe. O saxofone desliza suave, envolvendo-me num abraço revigorante. Do caixa, Érica me olha com um sorrisinho, aquele tipo de sorriso amigo.
O Empório não é somente um café; é um território quase sagrado, um templo onde o aroma de grãos torrados se mistura ao som suave de conversas, risadas e talheres distraídos. O espaço parece conspirar para a escrita, pois as luzes em tom amarelado deixa tudo mais confortável. Eu, aqui, me sinto inteira, como se o mundo tivesse se dobrado para que minhas palavras encontrassem caminho.
Um rapaz se aproxima da minha mesa, mas antes que ele se sente, Érica o direciona para outro lugar. Da mesa ao lado, escapa um ixxxx divertido. O casal ri da cena e logo mergulha numa discussão acalorada: o fogo, a roda ou o wi-fi — qual a maior invenção da humanidade? Um defende a roda com fervor científico; o outro garante, entre risos, que sem wi-fi ninguém lembraria dela. Finjo estar na leitura, mas sorrio por dentro.
A verdade é que o riso deles encaixou-se no meu fim de tarde como uma vírgula bem colocada. O café, que já é perfeito, ganhou o tempero da leveza alheia. Percebi, então, que parte da magia do Empório está justamente nesse equilíbrio: é refúgio e palco, silêncio e ruído, intimidade e coletivo.
Talvez eu ame tanto este lugar porque, aqui, escrever não é apenas um ato solitário. É uma conversa invisível com o ambiente, com os cheiros, com a sexta-feira que chega trazendo em si a promessa do descanso e o peso do que não fiz.
E assim, entre goles e risadas emprestadas, eu sigo. A sexta-feira me lembra que viver é urgente, mas o Empório me lembra que escrever é necessário.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 26/09/2025
Alterado em 27/09/2025