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Daniele Pereira
Escrever é uma forma de me conectar comigo mesma e, através das palavras, alcançar o outro.
Textos
Pequenos Silêncios
— Pode me ajudar?

A voz soa suave, quase súplica. Ele assente e a segue pelo corredor até a sala de materiais.

— Essa caixa em cima do armário, pode pegar?

Ele estica os braços e deixa a caixa de papelão na mesa ao lado, onde vários materiais  se enfileiram desordenados.

— Obrigada.

Ele não responde. Geralmente a faz rir bastante e é muito barulhento, entretanto, alguma coisa em suas feições foge do habitual. Há uma diferença marcante no modo que age hoje.  Ela o encara...

— Está tudo bem?

Silêncio. Ela fica imóvel, tentando assimilar a situação. Ele hesita, preso em seu mundo, com pensamentos em espirais. Há um certo desconforto na forma como ela o encara. Ele continua inexpressivo. Cuidadosamente, ela retira três embrulhos; examina-os tentando identificar se está tudo correto. Na pausa forçada, a mulher imagina... Se eu perguntar alguma coisa aleatória, ele vai conversar comigo com certeza.  Ao invés de perguntar sobre o clima, ela tasca um:

— QUE BICHO TE MORDEU HOJE?

Ele arregala os olhos e pela primeira vez a encara. O olhar suaviza. Carrega o universo em segredos não ditos. Como se a enxergasse igual a um poema em movimento, no qual o tempo perde a pressa. Ela recua, parece confusa. Já recebera esse tipo de olhar. Embora cheio de ternura, no passado sinalizou um adeus cruel, pois partiu pela própria mão, como quem escreve o ponto final da própria história. Ela se afasta, não quer passar pela dor novamente. Quando quase sai, sente a mão prendendo a sua.

— Eu te amo, porra! Eu realmente te amo.

Tudo o que estava amarrado saiu. Mesmo no frenético batucar do coração, o rosto do homem ficou calmo e sereno e seus pensamentos se alinharam numa paz não medida.  Uma expressão confusa se fixou nas feições da mulher. Um zumbido no ouvido a deixou levemente desnorteada e no minuto que se segue em silêncio, fecha os olhos. As palavras “Eu te amo, porra! Eu realmente te amo” dançam em sua mente, circulando em letras garrafais.

Ela arfa, enquanto levemente sua boca se entreabre para receber o ar que suas narinas não conseguem sugar. Com o ar, vem as palavras. Ela consegue senti-las em negrito, descendo pela garganta. Soam doces, intensas e tocam suas paredes internas, fazendo o coração pulsar num ritmo diferente.

Quando abre os olhos, ele a encara sereno. Não percebe que ela sorveu as palavras, não sabe que elas deixaram a garganta seca e a língua pesada. Ela quer dizer qualquer coisa, mas fica estática, presa na confissão.

O mundo entre eles fica suspenso. O que mais pesa não é o amor dito, é o silêncio que sucede. Silêncios… afinal, também ensinam.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 02/10/2025
Alterado em 07/10/2025
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