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Daniele Pereira
Escrever é uma forma de me conectar comigo mesma e, através das palavras, alcançar o outro.
Textos
O último Rosto
Durmo. Não, não durmo. Escorrego. E nesse deslizar me vejo num buraco. Dentro dele, um conhecido rosto sem vida. Quero acordar — e sei que estou sonhando. Essa lucidez me rasga mais do que a visão. “Não é real”, digo; digo outra vez até que a palavra desfaleça, até que “real” vire estática no ouvido.

Minha respiração fica desordenada. A cena implode.

Estou dentro de outra cena — uma sala de hospital. Minha respiração se acalma. Não há cheiro de álcool e desinfetante, só uma assepsia podre, o branco encardido que sangra silêncio.

A porta se abre, minha respiração fragmenta.

Caixões. Muitos.

Enfileirados como fileiras de dentes podres.

Cada um fechado, mas sei que guardam rostos conhecidos.

Uma maca. Outro corpo.

A mão escorrega, cai.

Lenta, exata, cruel.

Eu a conheço. É dele.

Ele que me levou ao mundo literário.

O caderno nas mãos, as palavras me empurrando.

Outro rosto que o sonhar devora.

O ar me abandona.

Tento respirar...

Mas  é inútil.

Estou presa em cárcere lúcido.

Quero sair!

Fecho os olhos.

Mas ao abrir, não há despertar.

Há outro dentro. Sempre outro dentro.

Agora, os caixões se abrem.

Um por um.

Não há pressa, não há som distante.

Apenas o ranger metálico das tampas.

Como se o ar estivesse sendo fatiado.

Vejo rostos.

Cada rosto é alguém que conheço.

Cada corpo é uma perda que nunca vivi.

Entretanto, sinto como se tivesse vivido todas.

A consciência vacila: sou eu quem sonha ou sou sonhada?

Perdi  o limite da minha carne.

Talvez já esteja deitada em uma daquelas caixas.

Talvez esteja olhando de dentro para fora.

Quero acordar.

Preciso acordar.

Mas a voz que me diz não é real está distante.

O último caixão range:

Minha boca se abre em espanto.

Não vejo um rosto amigo.

Olhos fechados.

Boca imóvel.

E a mão… não a conheço.

Grito! Grito...

O ar não vem.

Puxo. Nada.

De novo. Nada.

Peito fechado.

Costelas presas.

Ar, preciso de ar.

Não entra. Não entra.

Garganta seca, arranha.

Coração disparado. Tum... Tum. Tum.

Muito rápido. Muito forte.

Cabeça lateja.

Pontos pretos. Mais. Mais.

Pulmão vazio. Saco murcho.

Preciso. Preciso. Preciso.

Não vem. Não vem.

O mundo encolhe.

O corpo implora.

Não há ar.

Não há.

Não.

Acordo.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 08/10/2025
Alterado em 08/10/2025
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