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Daniele Pereira
Escrever é uma forma de me conectar comigo mesma e, através das palavras, alcançar o outro.
Textos
Assembleia extraordinária
Estávamos na copa conversando sobre o resultado de um concurso literário, quando ouvi:
— Geralmente, nos concursos, quem ganha é sempre o cordel, não a crônica.
Pensei… Será mesmo que o cordel “ganha” mais? E, se ganha, o que exatamente significa ganhar no mundo das palavras?

Foi aí que as letras começaram a conversar dentro de mim e quando começam não me deixam sossegar.  Elas conseguem construir mundos infinitos, mas às vezes, podem erguer muros indestrutíveis. É curioso como, no vasto território da escrita, em alguns momentos, elas se impõem e agem com vida própria,  iguais a crianças birrentas que decidem o rumo da brincadeira. E é assim, num misto de teimosia e encantamento, que nasce a escrita.

Ora leve e confortante, ora avassaladora e impactante, cada composição, embora infinita, é única. Nessa imensidão, tudo é possível, e tudo se transforma. Passado, presente e futuro se unem num abraço sem braços. O ir e vir se tornam um. Entretanto, assim como no mundo real, orgulho e estereótipos se formam… preconceitos nascem.

Quando dei por mim, já estava diante de um salão inteiro, cheio de gêneros literários discutindo entre si. No enorme salão, o burburinho se formou. Os gêneros haviam se reunido para uma assembleia extraordinária, o tema? Descobrir quem, afinal, era o mais importante. O Cordel, é claro, foi o primeiro a se levantar:

— Ora, minha gente, não tem pra ninguém! Sou eu quem carrego as vozes do povo, as rimas da memória, o riso e a denúncia do sertão. Nasci do medo do esquecimento e do desejo de ser lembrado!

Do outro lado, ergueu-se o Artigo Científico, com seu ar de autoridade e o olhar frio de quem mede palavras com régua e compasso:

— Por favor, contenham-se. Sou eu quem desenvolvo e divulgo o pensamento crítico, lógico e racional. Sem mim, o conhecimento não se consolida.

— Ah, pobre criança, sou eu que detenho o estatuto magno da soberania do conhecimento.  — Bradou o Ensaio.
O Poema, de alma sensível e olhar sonhador, interrompeu declamando:

— Ah, mas o conhecimento sem emoção é corpo sem alma. Eu sou o respiro da humanidade, o ponto e vírgula da vida.

— Alma? — zombou o Conto, ajeitando o cachecol. — Eu é que mostro a alma das pessoas! Crio universos em poucas páginas e deixo leitores acordados até tarde, pensando no que acabo de dizer, ou não dizer.

O Romance, pomposo, ergueu o queixo:
— Pobres mortais resumidos em brevidade! Sou eu quem dá profundidade à existência, quem permite ao leitor viver outras vidas!

Nesse instante, uma brisa suave entrou pelas janelas abertas. Todos silenciaram. A Poesia, a matriarca, adentrava o salão. Seus passos parecia música, e sua voz soava como lembrança antiga.

— Meus filhos — disse, com ternura e firmeza —, deixem de tolices. Nenhum de vocês existe sem mim. Eu sou o sopro que lhes deu origem. Fui quem ensinou o Cordel a rimar, o Conto a encantar, o Romance a sentir. Até o Artigo, vejam só, me usa escondido, em metáforas disfarçadas.

Atrás dela, vieram as filhas mais jovens:
A Aldravia, tímida e econômica, disse baixinho:
— Poucas palavras bastam pra dizer o mundo.

E o Haicai, estrangeiro de alma serena, completou:
— Silêncio breve/  o instante vira eterno/ flor e vento passam.

De repente, o silêncio foi quebrado por um som ritmado, intenso. Entrava o Slam, microfone em punho, voz potente:
— Mãe Poesia, eu sou a rua falando, o grito que rima com resistência! Sou ferida aberta, batida e verbo!

A Poesia sorriu orgulhosa:
— Eu sei, meu filho. Você é o pulsar do agora. E é por isso que sigo viva em cada tempo, reinventando-me em cada um de vocês.

Lá no canto, esquecida, estava a Crônica. Sentada num banquinho, observava tudo com um sorriso tímido. Quando lhe pediram a palavra, ela suspirou e disse:

— Eu? Eu apenas observo. Escrevo sobre vocês todos com suas manias, brilhos e disputas. Às vezes viro notícia, às vezes poesia, às vezes ensaio. Sou o meio-termo entre o efêmero e o eterno.

A Poesia se aproximou, colocou a mão em seu ombro e sussurrou:
— E és tu, minha filha mais discreta, quem melhor me traduz. Porque em ti cabem todos os outros.

E assim, no salão das Letras, os gêneros se calaram. A Crônica, tímida, levantou-se, ajeitou o caderninho no colo e saiu.
Na porta, olhou para trás e murmurou:

— No fim, todos vivem em mim. Eu sou o espelho das palavras e o retrato da vida.

E partiu leve, simples,  como quem não disputa tronos, mas reina em silêncio.

Mesmo entre escritores, há vaidades, comparações, disputas como se a arte tivesse que provar o próprio valor. Mas a escrita não é pódio. É pele. É sentir.

No vasto mundo das letras, o que realmente importa não é quem brilha mais, é quem faz alguém sentir alguma coisa. Porque, no fim das contas, é isso que mantém viva a chama da palavra.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 13/10/2025
Alterado em 14/10/2025
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