A Pressa, a Agenda e a Calcinha
É espantoso o quanto os dias estão passando rápido. De repente, são seis da manhã. Num piscar de olhos, meio-dia. E quanto mais fazemos, mais parece que o tempo nos observa de longe, zombando: “Ah, achou que ia dar conta, é?”. Vivemos nessa corrida maluca de tentar caber em 24 horas, sendo que, honestamente, já precisávamos de umas 36, e com pausa pro café, claro.
Agora, imagine conciliar essa loucura com a sala de aula. São dois universos paralelos que exigem do professor a habilidade de um polvo com doutorado em administração de tempo. Cumprir às 40 horas (ou mais, sejamos sinceros) é uma aventura digna de série dramática. A diferença é que, na nossa, não há trilha sonora heroica, só o som do despertador e o tilintar da caneca de café.
Essa superlotação dos dias faz a mente do professor operar no automático. E, nesse modo de sobrevivência, os esquecimentos se tornam personagens fixos do enredo. “Onde coloquei o apagador?” “Será que corrigi as provas?” “Era hoje ou amanhã o evento da escola?” perguntas que ecoam mais do que o sinal do recreio.
Nessas horas, a agenda surge como uma espécie de oráculo moderno. Um ser iluminado que organiza o caos, ou pelo menos tenta. O problema é quando a gente esquece… de anotar na agenda. Aí, meu caro, nem São Google Calendar salva.
E foi exatamente numa dessas semanas de sobrecarga: aulas, reuniões, eventos e ainda a festa dos professores, que o caos atingiu seu ápice. Exausta, ela dormiu mal, notou bolsas em baixo dos olhos, mas não havia tempo para maquiagem. Apenas tomou banho, penteou o cabelo, vestiu a calcinha, o sutiã, a camiseta, calçou os sapatos e saiu voando pra escola, com a pressa típica de quem já acorda atrasada.
Chegando lá, tudo parecia estranhamente calmo. Todos nas salas, o porteiro sumido, o silêncio quase poético. Trazia nas mãos a mochila, os presentes, os salgados e a sensação de missão cumprida até que um colega, igualmente atrasado, veio ajudá-la a carregar as coisas. Ele olhou pra baixo… e desviou o olhar, educadamente.
Foi então que ela sentiu um ventinho suspeito. Baixou os olhos… e o mundo parou. Calcinha branca. Velha. E só.
Os presentes voaram, os salgados saltaram e a dignidade foi correndo na frente rumo ao banheiro. Com o impacto, ela acordou do pesadelo, olhou rapidamente e se viu ainda na cama. Graças a Deus, ainda estava na cama. Ela suspirou agradecida.
Há dias em que a vida de professor é uma comédia pronta e, convenhamos, rir dessa loucura é o único jeito de não enlouquecer. Afinal, entre prazos, provas e agendas esquecidas, o mais importante é lembrar que, no fim das contas, estamos todos, apenas, tentando vestir a roupa certa pra enfrentar o dia.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 17/10/2025
Alterado em 19/10/2025