O tom de rosa que faltava
— Não viu a mensagem no grupo?
— Não. — respondi sorrindo, sem entender o motivo da pergunta.
Foi então que percebi: a escola inteira parecia um algodão-doce gigante. Tons de rosa por todos os lados, e eu ali, de camiseta branca, destoando do cenário como uma nuvem perdida no meio do pôr do sol.
— O grêmio solicitou que viéssemos de rosa para um momento especial.
Sorri, tentando disfarçar e segui para a sala. Lá esqueci completamente da paleta oficial. Até que alguém surgiu na porta:
— Professoras, estão solicitando a presença de vocês no hall de entrada.
Lá fomos nós, um desfile de pétalas humanas caminhando rumo ao desconhecido. Eu, claro, fiquei por último, tentando me misturar discretamente.
Chegando lá, veio o anúncio: seria um desfile. Isso mesmo. Um desfile. Cada professora iria atravessar o tapete improvisado mostrando “a elegância e o olhar de cuidado feminino”.
Eu, que não tinha um milímetro de rosa no corpo, apenas admirei. Aplausos, sorrisos, passos firmes. “Que máximo, escapei dessa…” Uma verdadeira passarela de autoestima. Até que…
— E agora, nossa próxima participante: Meu nome ecoou no microfone.
“Oxente, eu?” pensei, olhando ao redor na esperança de que tivesse me enganado. Nada. Fiz sinal de que não ia. Mostrei a camiseta branca como quem mostra um atestado médico. Mas, antes que pudesse me defender, senti uma mão nas costas.
Empurrão.
Escorregão.
Chão.
A queda foi cinematográfica. Digna de Ivete Sangalo: Rápida, barulhenta e, claro, presenciada por todos. As gargalhadas ecoaram pelo corredor, inclusive as minhas. Porque, convenhamos, cair em público é um clássico do humor involuntário.
Por um segundo, pensei em fugir. Fingir um desmaio talvez. Mas não. Levantei-me com toda a dignidade que restava, tirei o casaco, joguei-o dramaticamente para o lado e desfilei. Caminhei até o final do corredor como uma diva atrapalhada que transforma o tropeço em coreografia.
Os aplausos vieram. Riram comigo, não de mim. E, naquele instante, percebi: o rosa que me faltava não estava na roupa, estava na atitude.
A vida é cheia de tropeços, uns literais, outros nem tanto. Às vezes, a gente cai bem no meio da plateia e pensa que tudo acabou. Mas é justamente aí que mora a graça: levantar-se, ajeitar o cabelo e seguir desfilando. Porque seguir em frente, com leveza e riso, é o verdadeiro tom que colore nossos dias.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 21/10/2025
Alterado em 21/10/2025