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Daniele Pereira
Escrever é uma forma de me conectar comigo mesma e, através das palavras, alcançar o outro.
Textos
Eu prefiro os vilões
Nunca entendi o porquê, entre todos os personagens, sempre me vi atraída pelos vilões. Talvez porque eles não mintam sobre o que são. Enquanto os heróis vestem virtudes como máscaras, os vilões despem-se delas e o que resta é carne... dolorosamente um ser humano.

Heathcliff é feito de lama, vento e muito rancor. Há algo de perturbador e, ainda assim, profundo e fascinantemente verdadeiro nele. Não busca aprovação, não pede perdão. Ama e odeia com a mesma intensidade, sem filtrar o que sente. Ele não se encaixa, e talvez por isso me fascine,  porque todos nós, no fundo, também não cabemos nos moldes que muitas vezes fingimos habitar.

Os vilões me atraem porque me lembram que a alma humana também é feita de frestas, de lugares escuros onde guardamos tudo o que não ousamos mostrar. Eles vivem nessas frestas. São o espelho das partes que escondemos: o ciúme, o orgulho, a dor mal digerida. E, quando leio sobre eles, é como se alguém finalmente me dissesse que essas sombras também são parte de mim... e de você.

Mas não busco aceitação por me compadecer dos vilões. Não quero que entendam essa fascinação, nem que a justifiquem. É algo íntimo, quase silencioso, talvez um reconhecimento. Como quem olha o espelho e, por um instante, não desvia o olhar do que há de escuro.

E, apesar de tudo, detesto violência. Muito raramente faço alguém sofrer e, quando o faço, é sem intenção. Na minha pureza quase ingênua, compreendo esses personagens sombrios, mesmo quando suas atitudes me repugnam. Porque os entendo não com o coração que aprova, mas com a alma que se compadece.

Às vezes me pergunto: se eu estivesse no lugar deles, cercada pela mesma dor, pelas mesmas feridas, pelas mesmas ausências… o que eu faria? Até onde iria para sobreviver, para amar, para ser vista?
E se fosse você?

Talvez eu os prefira porque não suportam o disfarce. São sinceros no caos. E, de algum modo, essa sinceridade sombria me parece mais bela do que qualquer final feliz inventado para nos tranquilizar.

No fim, percebo que é por isso que volto sempre a eles, aos que não escondem o abismo. Porque há algo de profundamente humano em se perder, e de quase divino em admitir que já se perdeu.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 02/11/2025
Alterado em 24/01/2026
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