Eu não gosto de abraçar espinhos
Há quem ache que essa frase é apenas uma metáfora bonita, mas, para mim, ela é uma confissão. Dita em voz baixa, num desses dias em que o coração se recolhe para não sangrar mais do que o necessário. Porque, sinceramente, há pessoas que são mais espinhos do que flores.
Não falo dos que machucam por acidente, dos que erram tentando acertar, esses ainda exalam ternura, mesmo quando se perdem. Eu falo dos que se acostumaram a ferir, dos que se orgulham de suas farpas afiadas, como se ser duro fosse sinônimo de ser forte. Gente que transforma o afeto em ameaça, o carinho em disputa, o amor em armadilha.
Durante muito tempo, eu tentei abraçar espinhos. Fiz isso por medo de parecer fria, por acreditar que toda dor merecia compreensão. Mas há um preço em insistir onde só existe corte: a gente começa a se despedaçar em silêncio. E quando percebe, já está costurando as próprias feridas com fios de saudade e exaustão.
Hoje, aprendi a me afastar com delicadeza. A reconhecer que nem todo jardim é seguro, e que algumas flores, por mais belas que pareçam, carregam espinhos demais para serem tocadas. Não é falta de empatia, é autopreservação. Há abraços que machucam mais do que a solidão.
Então, sim, eu não gosto de abraçar espinhos. Prefiro o cheiro das flores simples, aquelas que não precisam ferir para existir. Prefiro o toque leve, o olhar sincero, o amor que não sangra. Porque, no fim das contas, a vida já é cheia demais de pontas afiadas e o que a gente precisa mesmo é de quem saiba florir perto da gente, sem nos fazer doer.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 03/11/2025