O Sonhador Dentro de Mim
Há noites em que o sono não vem, e eu me sento diante da janela como se esperasse alguém que nunca chega. O calor sopra, e as luzes distantes parecem pulsar como pensamentos antigos, insistentes, teimosos e latejantes. Nesses instantes, o sonhador de Noites Brancas, surge dentro de mim, perdido entre o desejo e a impossibilidade, abraçado à ilusão com a ternura de quem sabe que ela é tudo o que tem.
Dostoiévski o fez vagar pelas ruas de São Petersburgo, e eu o deixo passear pelas ruas da minha mente. Somos feitos da mesma substância translúcida: a do sonho, que se configura no mundo desperto e não no sonhar. Ele amava uma mulher que jamais o pertenceria, e eu amo versões de mim mesma que ficaram para trás. Há uma comunhão silenciosa entre o seu delírio e a minha vigília, pois ambos habitamos o intervalo entre o real e o ideal, esse território de névoas onde o coração ainda acredita no que a razão já desfez. Eu sei... parece triste, mas há uma beleza surreal nessa dicotomia, que me acerta em cheio, fazendo todas as células do meu corpo se agitarem.
Freud, se nos visse, talvez sorrisse com o ceticismo de quem decifrou demais. Diria que o sonhador e eu não fugimos da realidade, apenas buscamos nela o espelho das nossas carências. O inconsciente, segundo ele, não dorme: apenas inventa histórias para suportar o que o dia recusa. O amor impossível do sonhador seria, então, uma metáfora do desejo que nunca se realiza, porque o desejo, em si, não quer o objeto, mas a eternidade da busca.
E talvez seja isso que me une a ele, talvez seja por isso que em alguns momentos ele surge dentro de mim. Somos personagens do mesmo inconsciente coletivo, navegando entre o que fomos e o que sonhamos ser. Dostoiévski o fez sangrar em silêncio; eu apenas continuo o seu murmúrio.
No fim, Noites Brancas não é apenas sobre um amor perdido, é sobre o instante em que percebemos que o sonho é mais verdadeiro do que a realidade que o nega. Porque há em cada um de nós um sonhador que resiste, mesmo sabendo que o amanhecer virá. E talvez o maior aprendizado dessa obra, porque não... da vida, seja este: há mais lucidez na ilusão que acolhe do que na razão que abandona.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 06/11/2025