O Instinto… e o caráter?
Em meio à multidão, eu os avistei de longe. Os dois… culpados. Dois culpados. Saíram sorrateiramente da sala, acreditando que ninguém os havia visto. O olhar dele vagueou, desnorteado, procurando um disfarce entre os rostos que nada sabiam.
Não me viu. O rosto ruborizado não denunciava culpa, e sim tentava esconder, o crime não dito, o desejo consumado. Maculado, caminhava como quem foge de um flagrante, mas sem culpa, sem pesar. Nem ao menos pensou na mulher que está com seu filho no ventre.
Entretanto, eu os vi. E algo em mim se rompeu. Um peso gelado percorreu meu corpo, uma ânsia quase física. O estômago revirou-se, e a repulsa, mais do que pelo ato, foi pela ausência de caráter, pela traição não apenas a alguém, mas a si mesmo.
Há quem diga que o homem é movido pelo instinto. Que, em momentos de desejo, a razão se dissolve, e o impulso toma o leme. Mas até onde vai o instinto e onde começa a escolha? O animal que há em nós sussurra, sim, mas o ser humano, esse que se diz racional, ético, civilizado… deveria saber quando silenciá-lo.
O homem que trai não engana apenas o outro, mas destrói lentamente a si próprio. Há um tipo de infidelidade que não se mede em beijos roubados, mas em fragmentos de si deixados em cada. O desejo, quando não domado, torna-se um predador, e o homem, sua presa mais frágil.
De longe, ainda o observo. Ele ri, talvez aliviado, talvez ignorante da ruína que o segue. Penso em como é fácil perder o norte quando o prazer se disfarça de vitória, quando o corpo vence a alma, e o instante vence o eterno.
O homem, outrora ideal de pureza, parece ter esquecido o que é ser inteiro. Hoje, coleciona fragmentos de si, espalhados nas esquinas da própria inconsciência. E eu, que o vi, carrego o peso de saber: o maior pecado não foi o toque, mas o esquecimento de quem ele era.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 12/11/2025
Alterado em 14/11/2025