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Daniele Pereira
Escrever é uma forma de me conectar comigo mesma e, através das palavras, alcançar o outro.
Textos
O Sonhador que Me Lê

Às vezes penso que sou feita mais de sonho do que de carne. Caminho pelas ruas como quem arrasta um travesseiro invisível, e tudo o que vejo são as pessoas apressadas, os carros que passam como relâmpagos, o sol que insiste em nascer mesmo quando ninguém pediu. Isso tudo me parece pertencer a um reino que não é exatamente o da vigília. Talvez por isso eu escreva: para tentar costurar esse tecido frouxo entre o que é vivido e o que é sonhado.

Mas hoje, enquanto rabisco estas linhas, desconfio de algo estranho. A sensação súbita de que não sou eu quem escreve. Ou melhor: sou… mas não sozinha. Porque, de algum modo que não sei explicar... sinto que você aí, com seus olhos deslizando por estas palavras, também é o autor desta crônica. Afinal, quem a completa é você. Quem dá forma ao que imagina sou eu, mas quem o revive dentro da mente é você. No fundo, talvez sejamos ambos apenas sonhadores compartilhando o mesmo sonho temporário, não é mesmo?

Freud dizia que o sonho é o guardião do sono, o palco onde a mente encena, disfarçada, aquilo que teme assumir na claridade do dia. Território de desejos que vestem roupas simbólicas, de medos que se escondem atrás de portas semiabertas. Sonhar é tocar em si mesmo pelo avesso. É deixar que o inconsciente abra a janela e, por alguns instantes, respire.

E quando sonho, percebo que há leis diferentes ali como gravidades próprias, lógicas que não obedecem à razão, personagens que me visitam sem bater na porta, como se sempre tivessem vivido dentro de mim. O mais inquietante é que, quando desperto, essas figuras somem, mas deixam rastros como pequenas poeiras de sentido que brilham quando algum pensamento cotidiano as ilumina. Sonhar é ser visitado por nós mesmos, mesmo quando não queremos companhia.

E agora volto a você, leitor-sonhador. Porque talvez, neste exato momento, enquanto lê, esteja adentrando o meu sonho… ou eu o seu. Talvez esta crônica seja o lugar onde nos encontramos, dois desconhecidos reconhecendo a mesma pergunta que pulsa no fundo da noite.

E se tudo o que vivemos não passar de outro sonho?
Não digo isso no tom místico de quem quer revelar segredos do universo, mas no tom simples de quem acorda assustado: e se estamos sonhando até quando acreditamos estar acordados? Se nossos planos não forem mais do que tentativas de interpretar o absurdo simbólico que chamamos de vida?

Fecho os olhos e talvez você também e me pergunto:
Quem eu sou quando ninguém me vê?
E quem é você quando lê estas palavras como se fossem suas?

Talvez, no fim, sejamos apenas isso: sonhadores tentando decifrar o próprio enigma, caminhando entre mundos que não sabemos se são reais ou inventados, enquanto a existência nos observa em silêncio, esperando que despertemos.

Ou que, finalmente, aceitemos que viver…
é só mais uma forma de sonhar.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 04/12/2025
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