Doce Vertigem
Ele não me tocou. Nem estava tão perto, mas senti pelo ar, pelo silêncio, pela tensão que moldava o espaço ao meu redor. Como quem sente uma porta se fechar lentamente atrás de si: sem som, sem aviso, mas com a certeza absoluta de que não há mais saída.
Há algo no modo como ele me fita, uma chama contida, perigosa, quase sagrada.
Não é simples curiosidade.
É vigília.
É posse.
Seus olhos percorrem meus passos como um guardião, mas também como um carcereiro. E dentro de mim vibra algo inquieto: uma parte quer correr, outra quer ser desvendada. Não sei se me proteges ou me aprisionas.
Há medo, sim. Um medo que roça minha pele como vento gelado antes da tempestade.
Mas há também uma curiosidade visceral, que me puxa para dentro daquela escuridão onde nada é certo e tudo é intenso demais. Seu olhar me coloca no limite fino entre ser vista e ser devorada.
Ele me acompanha com os olhos como quem guarda um segredo que pode explodir o mundo. E eu me pergunto se quero escapar da explosão ou incendiar-me dentro dela.
À noite, quando tento dormir, sinto o peso do olhar e o ouço dizer,”você é minha.”
E eu, teço pensamentos filosóficos, tentando disciplinar o coração. Em meio ao eco da voz, ouço a razão gritar Nietzsche, o viver é arder, é se lançar no abismo e desejar o voo sabendo que pode ser queda. Então compreendi: o que me assombra não é o olhar que pesa, é o que ele desperta.
E sigo, vivendo nesse fio de navalha, onde o medo respira junto com o desejo, onde a liberdade dança com o risco e onde seu olhar, aquele que nunca me larga, me faz existir intensamente, ao mesmo tempo, em que ameaça me apagar.
Uma chama que aquece e queima.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 12/12/2025
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