Antes do ano acabar
2025 chegou sem delicadeza.
Entrou em mim como quem não pede licença, espalhando medo pelos corredores da casa e pelos silêncios das conversas. Muitos adoeceram. Alguns já estão bem, outros seguem em tratamento, e há quem espere, com o coração entregue ao tempo, uma grande cirurgia cardíaca. Aprendi que amar também é vigiar, é contar batimentos, é respirar junto quando falta ar.
Foi nesse mesmo ano que descobri uma doença genética, de nome difícil, quase impronunciável, como se até as palavras se recusassem a aceitá-la. Descobri, sobretudo, que ela ficaria. Que viver com ela não seria escolha, mas caminho. Vieram exames, muitos exames, agulhas, máquinas, laudos, e ainda há outros em andamento, buscando respostas para outra possível herança silenciosa. 2025 exigiu permanência quando tudo em mim queria descanso.
Foi um ano difícil. Profundamente difícil.
E, ainda assim, revelador.
Entre dores e esperas, eu sorri. Sorri com uma leveza inesperada. Sorrisos sinceros, desses que não pedem explicação, que apenas acontecem. Descobri que a leveza não nasce da ausência da dor, mas da coragem de seguir apesar dela.
Vi um elo muito querido se desfazer. Nossa conexão ainda existe, mais tênue, quase um fio invisível, mas existe. Algumas histórias não acabam, apenas mudam de forma.
No meio do caos, amizades se firmaram como abrigo. Segredos foram ditos sem máscaras, no tom mais cru do humano. Vi um homem chorar feito menino e, naquele choro, confessar seu pecado mais profundo. Do chão rachado nasceu algo improvável: uma amizade que curou. Um entendimento que eu procurei nos livros, mas que só a vida soube oferecer. Foi surreal. Por meio daquele instante, venci um trauma da infância. Meus olhos, os do coração, se abriram para uma paz que eu não sabia que existia.
Vi também, à distância, amizades que o tempo e a ausência não tocaram. Permaneceram intactas, provando que o que é verdadeiro não se dissolve.
Vi a covardia, a inveja, a mentira. E aprendi, com quem sabe viver, que nem tudo precisa ser dito. Pessoas mudam. Mudam mesmo. Se reinventam, se redescobrem, e nem sempre caminham mais ao nosso lado.
Não passei no concurso dos sonhos. Passei foi longe. Mas por incrível que pareça, não fiquei triste.
Não ganhei na loteria, mas nem jogo mesmo.
Não adotei um novo gato. Em compensação, tomei todos os cafés que pude, sozinha e com pessoas queridas. Recebi mais buquês do que fui capaz de contar. Ouvi declarações que me desarmaram e me assustaram. Cresci. Cresci tanto que precisei reaprender a caber em mim.
Não terminei a pilha de manuscritos esquecidos, mas escrevi mais crônicas do que jamais imaginei. Li livros que me despedaçaram para depois me reconstruírem com cuidado.
Vivi mil vidas em um só ano. Na sala de aula, reencontrei o amor pela profissão. Sorri com meus alunos, chorei com eles, e compreendi que tudo é possível quando desistir não é opção.
Antes que 2025 se despeça, sou grata. Grata até pelo que doeu. Sei que 2026 se abre diante de mim como um novo ciclo, carregado de possibilidades inimagináveis. Não apenas para mim.
Mas para você também.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 30/12/2025