Sem despedida
O que aconteceu na cidade chegou como chegam certas notícias que não pedem contexto. Trouxe espanto, trouxe dor, trouxe também culpa. Mas, sobretudo, há dores que não precisam ser explicadas, apenas despertadas. São como um idioma aprendido cedo demais, esquecido à força, e que de repente volta inteiro à boca.
Alguém partiu sem despedida, e esse gesto abriu um silêncio que eu já conhecia. Não pela manchete, não pelos comentários, mas pela memória. Houve um tempo em que alguém muito próximo decidiu ir. Não houve aviso nem encenação. Nenhuma palavra deixada para trás. Apenas o vazio imediato, esse tipo de resposta que não admite réplica e nos obriga a continuar falando sozinhos.
Desde então, aprendi que certas dores não pedem entendimento. Elas se instalam com a naturalidade de quem sempre esteve ali. O que a cidade agora tenta decifrar às pressas, eu atravessei devagar, sem método, sem linguagem, aprendendo no corpo o que ainda não sabia pensar.
Talvez por isso eu leia. Abro livros como quem procura uma fresta, não uma solução. Em Freud encontro a promessa de que o não dito retorna, mas ele retorna sem manual. Em Dostoiévski vejo consciências esmagadas por si mesmas, sem que isso explique o momento exato da queda. Em Tolstói reconheço vidas que desmoronam enquanto tudo parece intacto. E Clarice, com sua desconfiança radical, me lembra que toda explicação fechada é uma forma de afastamento.
Leio com atenção, com cuidado. Ainda assim, nada se encerra. As páginas iluminam certos contornos, aliviam a solidão do pensamento, mas não resolvem. E talvez não devam.
A cidade quer um motivo. Quer saber o que faltou, quem falhou, onde esteve o erro. Essa pergunta me soa familiar e, por isso mesmo, frágil. Nem toda partida responde à lógica. Nem todo sofrimento se oferece à escuta no tempo certo. Há decisões que nascem num lugar onde a linguagem não alcança e a razão chega tarde.
A culpa circula entre nós sem rosto definido. Não acusa, insinua. É culpa por não ter visto, por não ter percebido o peso de um silêncio, por não ter encontrado a palavra justa quando ainda havia tempo. Eu já conhecia essa sensação antes do acontecido. Sei que ela não paralisa, mas exige atenção. Ensina a escutar o que não se anuncia.
Escrevo não para explicar o que houve, nem para transformar a dor em lição edificante. Escrevo porque recuso o silêncio automático que costuma seguir essas partidas. Leio porque ainda procuro compreender, mesmo sabendo que talvez não haja compreensão possível. O gesto extremo não se deixa traduzir por inteiro, e insistir nisso é uma forma de honestidade.
O que aconteceu na cidade apenas confirmou algo que aprendi. Há dores que não se resolvem, apenas se atravessam. E há perguntas que não pedem resposta, pedem presença. Continuo lendo, continuo escrevendo, não porque isso encerre o assunto, mas porque é a única maneira que conheço de permanecer diante do que não se explica sem desviar o olhar.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 24/01/2026
Alterado em 25/01/2026