Erro Sintático
Sou regida pelo sol,
mas não no sentido astronômico.
Ele me governa a frase,
me alinha o pulso,
me faz conjugar o viver
no indicativo claro.
Penso em linha reta quando há luz.
As ideias se comportam.
Os sentimentos obedecem à gramática diurna
e o mundo parece, por algumas horas,
um texto revisado.
Ainda assim, há dias
em que a sintaxe falha.
Dias nublosos me atraem
sem causa eficiente,
sem advérbio explicativo,
sem metáfora de apoio.
O céu então se desloca do sujeito
para o predicado.
Nada afirma.
Tudo sugere.
No nevoeiro, o sentido se dissolve
antes da palavra.
Não há horizonte suficiente
para a lógica se instalar.
E eu, solar por formação,
descubro um prazer ilegível
em não compreender.
O sol exige concordância.
O nevoeiro aceita ambiguidade.
Sob luz plena, sou regência.
Sob nuvem baixa, sou desvio.
E é nesse erro sintático do mundo
que algo em mim
finalmente faz sentido
sem precisar significar.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 29/01/2026
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