Cartografia das Despedidas
A despedida começa antes da porta se abrir.
Ela se espalha pelo ar
como um perfume que ninguém escolheu usar
mas que, ainda assim, toma todos os cantos da sala.
Eu sinto primeiro pelos olhos da pele.
Depois pela língua.
Depois por uma parte do corpo que não sei nomear.
Abraço a conselheira de todas as horas
e o ar ganha cheiro de chá morno com hortelã.
Há uma quietude verde em volta dela,
um silêncio que organiza as coisas dentro de mim
como quem arruma gavetas sem fazer barulho.
Quando se afasta
fica no ar uma espécie de lucidez macia
e eu sinto o gosto de páginas sublinhadas
na parte de trás da língua.
Logo depois vem o amigo das brigas e das birras.
Com ele a despedida tem cheiro de chuva em cimento quente.
Um aroma elétrico, meio impaciente.
O abraço é curto
e deixa nos dedos uma textura de tempestade contida.
Sinto uma mistura áspera
de irritação antiga
com uma ternura que nunca soubemos confessar direito.
A emoção é laranja.
Quase ruidosa.
A mulher que sempre foi exemplo
passa por mim como um perfume de madeira limpa
e sol da manhã.
Quando a abraço
o peito se enche de um dourado firme
como se alguém tivesse acendido uma lâmpada antiga
dentro da memória.
Não é saudade ainda.
É admiração com um leve peso nos ombros
como se eu herdasse
uma parte invisível da postura dela.
Depois vem a confidente das histórias que poucos acreditariam.
Com ela o ar muda de densidade.
Há cheiro de incenso frio
misturado a algo doce demais para ser nomeado.
Um perfume violeta
quase translúcido.
Quando nos despedimos
sinto um frio delicado atravessar a nuca
como se alguma coisa do outro lado do mundo
tivesse escutado.
Há cumplicidade nisso.
E um espanto tranquilo.
Por fim
chegam as risadas do amigo engraçado
antes mesmo do abraço.
Elas têm cheiro de pão recém-saído do forno
e de rua depois da escola.
Quando ele se vai
fica espalhado no ar um amarelo leve
que ainda vibra nas paredes
como se o riso tivesse memória própria.
Então a sala fica mais larga.
As cores diminuem.
Os cheiros descansam.
E eu fico ali
atravessada por todos eles
como uma casa onde muitas estações passaram
na mesma tarde.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 14/03/2026
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