Diários de uma professora- I
Jamais imaginei que seria possível sentir-me avó de uma estudante, mas foi exatamente assim que me senti durante uma aula na biblioteca. Direcionei a turma para uma atividade em grupo na qual deveriam escolher uma obra e montar uma vitrine literária. O intuito, além de incentivar a leitura, era conhecer um pouco dos gostos de cada um.
No meio de uma apresentação, uma estudante, com eloquência, começou a expor a obra que estava lendo. Em dado momento, vozes alheias atravessaram sua fala, acendendo em mim algo antigo, uma espécie de déjà vu. Sentei-me um pouco distante e passei a observar a cena. As palavras, de certa forma, pareciam minhas, ditas em tempos de outras salas.
Quando eu já estava completamente tomada pela emoção, a estudante revelou o nome de sua antiga inspiração. O nome ecoou em meus ouvidos e vibrou no meu coração. Ah, que sensação sublime. As lágrimas encheram meus olhos, e não apenas os meus, mas também os delas e os de outros.
A inspiração daquela estudante da primeira série fora, em outros tempos, o motivo dos meus quase colapsos nervosos, risos. Eu sei, exagero, mas ele me disse, olhando nos olhos, que viera à escola apenas para causar e que havia me detestado. Na época, sorri com o coração pequeno e, em tom de brincadeira, respondi que ainda o conquistaria. Com o passar do tempo, foi exatamente o que aconteceu. Tornou-se professor, escritor, fomentador da leitura e da escrita, um formador de opinião.
Naquele instante, compreendi que meu trabalho em sala de aula foi e continua sendo significativo. Fui preenchida por um orgulho sereno da profissão, desses que desejo a todo professor ao menos uma vez na vida. Não romantizo o ofício, longe disso. Só conhece o chão de uma escola quem o pisa todos os dias.
Há coisas que, se escritas, soariam como fantasia. No entanto, em meio aos absurdos do fazer docente, escolhi seguir os caminhos de Ariano Suassuna e ser uma realista esperançosa. Para alguns, pode parecer algo simples. Para mim, e para meus novos estudantes, foi um instante em que o tempo se dobrou dentro de uma aula de português, unindo gerações. E eu, jovem senhorinha, senti no coração a discreta magia da profissão.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 30/03/2026