Diários de uma professora II
Na aula, tudo começara como se começa quase sempre: com a intenção modesta de aquecer. Um exercício breve, um ponto de partida na oficina de escrita criativa. Algo que preparasse o terreno para o que viria depois. Nada que pedisse demais, nada que prometesse permanecer.
Pedi que escrevessem. Apenas isso. Como quem acende uma chama pequena para espantar o frio da hesitação. Na lousa, três frases incabadas, as quais eles deveriam continuar.
No início, o gesto foi o esperado. Mãos cautelosas, palavras ainda tímidas, frases que pareciam pedir licença ao papel. Era aquecimento, apenas. Um ensaio do que poderia, talvez, acontecer mais adiante.
Mas algo desviou o curso.
Sem anúncio, sem ruptura visível, o que era início tornou-se corpo. As palavras começaram a ganhar temperatura, a correr com uma intensidade inesperada, como se brotassem de um mesmo lençol subterrâneo. Já não eram tentativas isoladas. Havia uma espécie de corrente atravessando a sala, unindo cada escrita a outra, num fluxo contínuo e quente.
As poesias surgiam assim, como fios de um rio vivo, atravessando os corações tímidos e chegando aos cadernos. No percurso, contornam os silêncios, encontrando passagem onde antes havia apenas superfície. Um escrevia e, sem saber, abria caminho para o outro. Uma imagem lançada de um canto ecoava em outro, transformada, ampliada, reinventada. A sala deixou de ser um conjunto de indivíduos e passou a pulsar como um organismo único.
Foi quando reparei nele.
Habitando o mundo por um ritmo próprio, ele escrevia com timidez, porque o português não é sua língua materna, ele fala com as mãos. Seus movimentos tinham densidade, um tempo interno que não se apressava, mas também não hesitava. Havia ali uma entrega inteira, como se o gesto de escrever fosse, para ele, uma forma de respirar mais fundo.
Seu corpo inteiro parecia envolvido no que produzia, como se cada palavra nascesse não apenas da mente, não apenas das suas mãos, mas da percepção expandida do mundo.
Quando terminou, houve um breve intervalo. Um silêncio que não era vazio, mas expectativa. Ele me olhou, e naquele olhar havia uma pergunta que não precisava de som.
E, de repente, compreendi que aquele rio que atravessava a sala também passava por ali com uma força singular. Sua poesia não imitava vozes, não buscava equivalentes no que se ouve. Ela se organizava por outra lógica, feita de imagens que quase podiam ser tocadas. Falava do amor puro que se move, do gesto de cuidado e do abraço que se torna memória.
Era uma linguagem que não faltava. Era uma linguagem que excedia e que reverberava em cada sinal reproduzido.
Senti o impacto com nitidez. Não apenas pela beleza do que estava escrito, mas pelo instante em que aquilo acontecia. O que começara como aquecimento havia se transformado em algo indivisível, uma coesão rara em que cada um escrevia e, ao mesmo tempo, sustentava o outro nesse fluxo comum.
Levantei os olhos e vi a sala.
Não havia ruído, mas havia intensidade. Cada estudante mergulhado em sua própria travessia, e, ainda assim, todos ligados por esse rio quente que agora corria entre eles. A escrita deixara de ser preparação. Tornara-se acontecimento.
E eu permaneci ali, imóvel por dentro, reconhecendo o que não se repete facilmente. Não era apenas o nascimento de textos. Era o nascimento de uma escuta mais ampla, de uma presença compartilhada, de um modo de existir junto que não precisa de explicação.
Naquela manhã, o ponto de partida não levou a outro lugar.
Ele se tornou o próprio destino.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 16/04/2026
Alterado em 16/04/2026