Diários de uma professora III
Voltar para casa, depois de um dia inteiro sendo professora, é uma espécie de travessia espiritual. O corpo vai, mas a alma fica sentada na última carteira, corrigindo mentalmente uma crase esquecida.
Naquele dia, não houve carona. E quando não há carona, há destino. E o destino, no meu caso, atende pelo nome de van de Dedé, esse microcosmo onde o Brasil futuro grita, ri alto e, às vezes, assassina a língua portuguesa sem qualquer remorso.
Entrei já com o cansaço instalado nos ombros, como quem carrega uma bolsa invisível cheia de redações. Olhei ao redor. Dois lugares vagos. Dois universos possíveis.
Um deles era o banco dos irmãos que brigam com disciplina militar. Não brigam por motivo algum, brigam por princípio. Sentei ali uma vez e saí com a sensação de ter participado de um documentário sobre guerras civis, onde eu mesma era o próprio exercito na linha de frente.
O outro lugar era ao lado do casal adolescente. Eles vivem numa bolha onde tudo é meio segredo, meio riso, meio toque de mão que não termina nunca. Pensei comigo, com a ingenuidade de quem já deveria ter aprendido: aqui haverá paz. No máximo um cochicho, um suspiro, um silêncio cúmplice.
Aproximei-me com o cuidado de quem não quer interferir no curso natural das coisas. Pensei: eles vão trocar olhares, talvez mãos, e eu, discretamente, ouvirei Mozart e deixarei que a música me devolva a mim mesma. Era um plano simples, quase elegante.
Mas a realidade, essa escritora cruel, tinha outro roteiro.
Sentei.
Coloquei o fone.
O fone não funcionava.
Ali começou a minha queda.
O que se seguiu não foi exatamente uma conversa. Foi uma experiência linguística radical. Eles falavam em fragmentos, como se as palavras tivessem passado por uma peneira e só sobrassem as consoantes mais cansadas. O que já me parece um avanço da modernidade sobre a sanidade.
Entre uma frase inacabada e outra, o rapaz emitia sons. Não eram risadas. Não eram palavras. Eram… manifestações. Algo entre um motor engasgando e um personagem de desenho animado em crise existencial. A cada som, a menina ria como se estivesse diante do auge do humor mundial, dizia repetidas vezes: Coringou.
E eu ali, professora de português, assistindo à língua sendo desmontada peça por peça, sem manual de instruções.
Em certo momento, pensei em intervir. Não por correção, mas por sobrevivência. Algo como: “meninos, usem uma vogal, só uma, não custa nada”. Mas me contive. Havia algo quase científico acontecendo. Um estudo de campo sobre o futuro da comunicação humana.
E, para meu espanto, eles se entendiam perfeitamente.
Riam nos momentos certos. Se olhavam com precisão semântica. Havia sentido naquela bagunça toda. Um sentido que não passava pela norma culta, mas passava, claramente, pelo afeto.
Depois de um tempo, veio o silêncio. Um silêncio breve, suspeito, como quando a criança para de fazer barulho e a mãe desconfia.
Foi então que ouvi, num sussurro que chegou atrasado, mas chegou:
— Eita… a professora de português tá aqui do lado.
Fiquei imóvel. Quase solene.
Esperei o constrangimento.
Ele não veio.
Eles apenas diminuíram o volume do caos.
Sorri, sem que eles vissem.
E eu, vencida, encostei a cabeça no vidro e pensei que talvez a língua portuguesa não esteja em perigo coisa nenhuma. Talvez ela só esteja, como todos nós, tentando voltar para casa do jeito que dá.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 25/04/2026