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Daniele Pereira
Escrever é uma forma de me conectar comigo mesma e, através das palavras, alcançar o outro.
Textos

O Diário Oficial sempre me pareceu um lugar sem alma.

Um território de nomes, números, atos administrativos e formalidades que passam diante dos olhos sem deixar vestígios.Não gosto de lê-lo. Talvez por isso o choque tenha sido maior. Porque algumas verdades não chegam envoltas em gritos. Elas chegam impressas em fonte padrão, alinhadas em colunas discretas, esperando que alguém as leia.

Eu li.

E então encontrei o nome.

O nome dele.

Por alguns segundos permaneci imóvel, como quem encara uma fotografia antiga e percebe um detalhe que esteve ali o tempo todo, mas que nunca havia sido visto. Li novamente. Depois outra vez. Como se a repetição pudesse alterar a realidade.

Não alterou. A verdade continuou ali.

Definitiva.

Cruel.

Incontestável.

E o primeiro sentimento que me atravessou não foi a revolta.

Foi a culpa.

Porque antes daquele nome estampado no Diário Oficial, houve uma pessoa que me procurou. Alguém que carregava a dor de quem havia sido ferido. Alguém que, com a voz embargada, contou aquilo que eu me recusei a acreditar.

Lembro-me perfeitamente.

Olhei nos olhos da vítima e perguntei:

— Você não entendeu errado?

Hoje essa pergunta me persegue.

Não porque eu duvidasse por maldade. Eu duvidei porque acreditava nele. Porque havia construído dentro de mim uma imagem tão sólida daquele homem que qualquer informação contrária parecia impossível.

Eu não invalidei apenas um relato.

Invalidei uma dor.

E essa talvez seja uma das formas mais silenciosas de violência.

A confiança possui uma perversidade peculiar. Ela não apenas nos aproxima das pessoas. Ela também nos cega para aquilo que não desejamos ver.

Passava horas conversando com ele.

Horas.

Falávamos sobre livros, sobre o absurdo da existência, sobre as contradições humanas. Foi ele quem me presenteou com meu primeiro mergulho verdadeiro na literatura russa. Um livro que ainda permanece na minha estante, carregando o peso estranho dos objetos que sobreviveram à mudança das nossas certezas.

Por causa dele conheci personagens que me ensinaram mais sobre a alma humana do que muitos tratados de psicologia.

Talvez por isso tudo doa tanto.

Porque não estamos falando de um estranho.

Estamos falando de alguém que me ajudou a enxergar a profundidade da condição humana.

E, ironicamente, foi justamente essa profundidade que eu não consegui enxergar nele.

Freud dizia que não somos senhores da nossa própria casa. Que grande parte daquilo que somos permanece escondida em regiões inacessíveis da consciência. Talvez seja verdade.

Mas existe algo ainda mais perturbador.

Não é apenas o fato de desconhecermos a nós mesmos. É o fato de que os outros também nos desconhecem. Cada pessoa recebe uma versão fragmentada de quem somos.

Um rosto para os amigos.

Outro para os colegas.

Outro para a família.

Outro para aqueles que amamos.

Construímos uma espécie de mosaico de identidades distribuídas ao redor de nós. Nenhuma delas é inteiramente falsa. Nenhuma delas é inteiramente verdadeira.

E assim seguimos.

Habitando personagens que se sobrepõem.

Talvez seja por isso que certos crimes nos chocam tanto. Não apenas pelo ato em si, mas pela ruptura da narrativa que havíamos criado sobre alguém.

Não choramos apenas pelo que aconteceu.

Choramos pela morte da imagem que construímos.

Lembro das inúmeras discussões sobre Crime e Castigo. Quantas vezes falamos sobre Raskólnikov. Quantas vezes debatemos sua tentativa desesperada de se colocar acima da moral comum, como se a inteligência pudesse absolvê-lo da responsabilidade pelos próprios atos.

No fim, o castigo de Raskólnikov nunca foi a condenação judicial.

Foi a impossibilidade de escapar de si mesmo.

Nenhuma cela foi tão sufocante quanto sua própria consciência.

Hoje penso nisso.

E penso nele.

Se existe culpa, que ela seja enfrentada.

Se existe responsabilidade, que ela seja assumida.

Não desejo sua destruição.

Desejo algo mais difícil.

Desejo que ele encare a verdade.

Que receba o castigo que lhe cabe.

Que atravesse a dor sem se esconder atrás de justificativas.

Que encontre a coragem que faltou a Raskólnikov durante tanto tempo.

E que, quando finalmente olhar para os próprios erros, não escolha permanecer como o Homem do Subsolo, afundado no ressentimento, na autocomiseração e na negação.

Prefiro imaginá-lo mais próximo do príncipe Míchkin, de O Idiota. Não por sua inocência, que já não existe, mas pela disposição de olhar para o sofrimento humano sem máscaras, sem cinismo, sem fuga.

Porque o verdadeiro castigo não é sofrer.

É compreender.

E sobreviver à compreensão.

Então nesse burburinho, a voz de um amigo ecoou em mim:

— Não se culpe por acreditar nele. Você viu o lado bom dele.

A frase soava como cuidado.

Não era uma defesa do delito.

Não era uma tentativa de absolver quem o cometeu.

Era uma tentativa de me absolver de mim mesma.

De me lembrar que confiar não é um erro moral.

Ainda assim, continuo lutando contra a culpa.

Porque penso naquela pergunta.

Penso naqueles olhos.

Penso no instante em que escolhi proteger uma imagem em vez de acolher uma dor.

Talvez a vida adulta seja justamente isso.

Descobrir que as pessoas são maiores do que as versões que apresentam ao mundo.

Algumas para melhor.

Outras para pior.

E nós, inevitavelmente, erramos ao julgá-las.

Hoje sei que acreditar em alguém não me torna culpada pelos atos que essa pessoa praticou.

Mas também sei que a confiança não pode servir de desculpa para a cegueira.

Existe uma diferença entre amar alguém e abandonar o próprio discernimento.

Demorei para aprender.

Talvez ainda esteja aprendendo.

O nome continua lá, registrado para sempre naquele Diário Oficial.

Mas o verdadeiro documento não é aquele.

O verdadeiro registro foi feito dentro de mim.

A descoberta de que o ser humano é capaz de esconder os seus abismos até mesmo daqueles que o observam de perto.

E a descoberta, ainda mais dolorosa, de que acreditar no melhor das pessoas é uma virtude que às vezes cobra um preço alto.

Mesmo assim, apesar de tudo, recuso-me a abandonar essa virtude.

Porque o problema nunca esteve em acreditar na luz.

O problema é esquecer que ela coexise com a sombra.

E talvez amadurecer seja justamente isso: aprender a enxergar ambas.

Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 20/06/2026
Alterado em 20/07/2026
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