Ela me pegou desprevenida. Quando dei por mim, estava tudo escuro. O medo me invadiu — espanto puro. Os pelos do meu corpo se arrepiaram como um alarme inútil. O pavor me prendeu na bolha da qual tenho fugido há tanto tempo. Nessa prisão, ouvi as violentas batidas do coração como se ele estivesse fora do corpo e não me pertencesse.
O breu invadiu meu ser, deixando-me sem luz e sem esperança. O silêncio, antes tão sutil, tornou-se um carcereiro da minha própria psique. Duas noites sem dormir foram suficientes para que ela assumisse o controle.
Pela primeira vez, ela me permitiu ver tudo. Antes, quando assumia o controle, eu sentia apenas frações de minutos, como se tivesse cochilado enquanto horas passavam.
Dessa vez foi diferente. Vi quando perdi o controle. Senti quando ela assumiu. Tentei mover os pés: nenhuma reação. Meu corpo acabara de se tornar uma marionete. Por mais que eu tentasse me opor, nada acontecia.
Do breu para a sala branca. Fui transportada como névoa sem matéria, apenas uma ideia à deriva. De forma vívida, passei a ver meu próprio corpo se mover como se fosse outrem.
As sensações ainda me chegavam. Senti a lâmina fria tocar minha pele. Não houve dor, apenas o frio e o desconcerto. O sangue jorrou do lado direito da minha face e escorreu lento, quente, real.
Ela me conduziu até o espelho e pediu que eu observasse seus próprios olhos que eram os meus. Primeiro vi meu olhar, antes calmo e iluminado, perder a suave tranquilidade. Então ela assumiu. As sobrancelhas se fecharam. Os olhos se estreitaram. O brilho gentil deu lugar a uma intensidade fria e ameaçadora.
Havia um sorriso macabro se formando no canto dos lábios. Quanto mais eu gritava, mais ela sorria um riso denso, opressor, inteiramente seu.