Nunca me esquecerei daquele lugar.
Há quem diga que sonhos são apenas fragmentos da mente tentando organizar lembranças. Outros acreditam que certas experiências pertencem ao campo do sobrenatural. Passei anos tentando encaixar o que já vivi em alguma dessas explicações. Falhei em todas.
As experiências que às vezes me abarcam não são sonhos. Também não são deste mundo. Algumas são mais intensas, outras avisos. Embora muitas vezes eu reprima e repreenda, esse dom não se afasta de mim.
Não sei quanto tempo permaneci lá, porque naquele lugar o tempo não obedecia às leis que conhecemos. O passado, o presente e o futuro pareciam comprimidos em um único instante interminável. O ar era pesado, antigo, sufocante. Respirar exigia esforço, como se cada inspiração fosse obrigada a atravessar uma muralha invisível antes de alcançar meus pulmões.
Eu não estava sozinha. Ao meu lado havia uma presença luminosa. Não conseguia enxergá-la com nitidez. Eu sentia a presença como olhar diretamente para o sol através da neblina, uma luz branca que pulsava suavemente, entretanto, não a via.
Não me disse seu nome. Sua voz, porém, permanecia calma.
— Não tenha medo. Estou aqui.
Mesmo assim, eu tremia. O lugar inteiro parecia rejeitar a vida e o cheiro era a primeira violência. Não era apenas odor de carne apodrecida. Era algo muito pior. Um perfume ácido de sangue envelhecido misturado ao cheiro de terra molhada, enxofre, fumaça de gordura queimada e umidade antiga.
Parecia que milhares de corpos haviam sido abandonados ali durante séculos. O ar grudou na garganta e como consequência, minha língua adquiriu um gosto metálico, fazendo com que a cada respiração meu estômago embrulhava.
Eu queria vomitar. Mas nem isso conseguia.
A entidade delicadamente disse: — Continue andando.
Seguimos por um corredor escuro escavado na própria pedra. As paredes respiravam. Sim, respiravam. Pulsavam lentamente, como um organismo vivo, revelando que aquele lugar jazia a morte.
O silêncio era quebrado apenas por um cântico grave. Não parecia uma língua humana. Quanto mais caminhávamos, mais forte se tornava aquele coro.
Quando chegamos ao fim do corredor, vi o lugar onde jamais desejei estar. Era um salão gigantesco. Centenas de pessoas encapuzadas formavam um enorme círculo. Nenhum rosto era visível. Apenas as mãos, que seguravam velas negras com chamas azuis.
No centro havia uma enorme pedra semelhante a um altar. Sobre ela, alguém com os braços e pernas amarrados. Preso. A vítima ainda respirava. Seus olhos estavam completamente abertos. Não gritava.
Talvez porque já não tivesse forças. Quem sabe soubesse que ninguém sairia dali. As figuras encapuzadas caminhavam em volta dela lentamente enquanto repetiam palavras que faziam meu peito vibrar de dor. Cada sílaba parecia esmagar meu coração.
A entidade que me acompanhava aproximou-se.
— Não olhe diretamente para eles.
Mas era impossível obedecer. Meu olhar era atraído para o centro daquele ritual como se uma força invisível me puxasse. Precisava entender, saber o que era realmente aquilo.
À minha frente havia vários sacos enormes empilhados. Subi sobre eles para enxergar melhor. O tecido era grosso, úmido e irregular. Quando coloquei o segundo pé sobre um deles, senti algo duro quebrar sob meu peso.
Um estalo seco. Depois outro. E mais outro. Quando olhei, o saco havia se rasgado, mostrando-me uma mão incompleta: Dedos enegrecidos, cobertos por terra fétida.
Meu corpo inteiro congelou. Desci imediatamente. Outro saco se rompeu. Desta vez um crânio deslizou lentamente para fora. Não havia dúvida. Não eram objetos.
Eram pessoas.
Centenas.
Talvez milhares.
Entendi que os restos comprimidos dentro daqueles sacos eram como se fossem lixo descartado após o ritual. Minhas pernas perderam completamente a força. Quis correr e acho que fiz barulho. Não lembro.
Nesse instante o cântico cessou. Um silêncio absoluto tomou conta daquele salão. As centenas de encapuzados permaneceram imóveis.
No entanto, todos voltaram lentamente o rosto para mim. Mesmo escondidos pelos capuzes, senti seus olhares. Então ele apareceu. Era muito maior do que todos os outros.
Não caminhava. Deslizava. Sua roupa era mais escura que a própria escuridão. Um Eigengrau. O ar que cortava minha garganta cessou. Não conseguia ver seu rosto. Via apenas dois olhos profundamente avermelhados brilhando dentro do capuz.
Todos se afastaram para lhe dar passagem.
Ali compreendi.
Ele era o líder.
A autoridade daquele lugar. Sua presença fazia o próprio ambiente estremecer.
O chão vibrava sob meus pés. Quando ele começou a se aproximar, senti uma dor aguda no tornozelo esquerdo. Olhei para baixo. Minha pele começava a escurecer. Como se algo invisível estivesse desenhando um símbolo em minha carne.
Entrei em desespero.
Senti a voz firme da entidade que me acompanhava. A voz firme ecoou:
— Não permita.
— Como?
— Clame pelo sangue de Jesus.
Agora!
Obedeci sem pensar.
— O sangue de Jesus tem poder.
Embora quase sem som, a frase saiu numa autoridade que eu jamais pensei ter. Aconteceu algo impossível.
Cada palavra transformou-se em luz. Não era metáfora. As palavras realmente saíam da minha boca como feixes brancos extremamente brilhantes.
A claridade fez o homem recuar. Continuei.
— O sangue de Jesus tem poder.
Mais luz. Muito mais intensa. O chão começou a estremecer. As sombras recuavam.
As figuras encapuzadas protegiam os próprios rostos. O líder rugiu.
Era um som impossível de existir neste mundo. Algo entre milhares de animais morrendo ao mesmo tempo. Ele tentou novamente alcançar meu tornozelo. A marca quase tocou minha pele. Clamei outra vez.
Mais alto.
Mais forte.
Mais desesperadamente.
— O sangue de Jesus tem poder!
A luz tornou-se tão intensa que deixou tudo branco.
Não enxergava mais o salão.
Nem o altar.
Nem os sacos.
Nem os encapuzados.
Só havia claridade.
A entidade apertou minha mão.
— Continue.
Não pare.
Repeti sem cessar. Cada palavra parecia abrir um caminho diante de mim. O lugar começou a desaparecer.
Primeiro os sons.
Depois o cheiro.
Depois o frio.
Por último desapareceram aqueles olhos vermelhos.
Senti uma queda.
Abri os olhos.
Estava novamente em meu quarto. Achei que tudo havia terminado. Não havia.
Meu corpo inteiro vibrava. Não era tremor. Era como se milhões de pequenas correntes elétricas percorressem cada músculo ao mesmo tempo. Meus dentes batiam sem controle.
A cama tremia comigo. Minha pele queimava. Coloquei a mão sobre a testa. Nunca senti uma febre tão alta. Era como se meu sangue estivesse fervendo.
Mal conseguia respirar. Quando finalmente consegui me levantar, fui direto ao banheiro. Precisava lavar o rosto. Precisava convencer a mim mesma de que tudo fora um delírio.
Então olhei para meus pés. Meu tornozelo esquerdo estava completamente vermelho. Havia nele uma pequena marca. Não era profunda, marcava o início do símbolo interrompido. Passei os dedos sobre ela. Ardeu.
Na mesma hora senti novamente aquele cheiro. Terra úmida. Sangue velho. Enxofre, quase imperceptível. Virei-me rapidamente. Não havia ninguém.
Ainda assim, tive absoluta certeza de que alguém continuava me observando.
Desde então, nunca mais durmo sem antes repetir, inúmeras vezes, as mesmas palavras que me devolveram à minha própria era. Porque aprendi, da pior maneira possível, que existem lugares dos quais só se retorna enquanto a luz ainda consegue encontrar você.
Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 27/06/2026