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Daniele Pereira
Escrever é uma forma de me conectar comigo mesma e, através das palavras, alcançar o outro.
Textos

As serpentes começaram a aparecer depois da terceira noite sem dormir.

No início, pensei que fossem nervos. Pequenos espasmos sob a pele, movimentos involuntários causados pelo cansaço. Eu estava emagrecendo rápido demais, esquecendo palavras simples, ouvindo passos pela casa quando não havia ninguém. O médico disse ansiedade. Os familiares, coisa do mal. Eu não disse nada.

Porque já suspeitava. Elas estavam dentro de mim.

A primeira vez que senti uma delas subir pela coluna, vomitei no chão do banheiro. Não sangue. Não bile. Apenas aquela sensação impossível de algo vivo procurando saída entre meus ossos.

Passei dias sem olhar no espelho. Dias... Mas os espelhos olham de volta. Eles sempre olham de volta.

Numa madrugada, acordei com um som úmido vindo do corredor. A casa inteira escura, exceto pela luz azul da televisão desligada. O barulho continuava. Um arrastar lento. Orgânico.

Fiquei imóvel na cama. Então ouvi minha própria voz sussurrando da cozinha:

“Não acende a luz.”

Meu corpo gelou.

Eu estava no quarto. Eu sabia disso. Sentia minhas unhas cravadas no lençol. Sentia meu coração descompassado. Mesmo assim, minha voz tornou a falar, mais próxima daquela vez, quase na porta:

“Se você olhar, elas percebem.”

Algo respirava do outro lado. Não era humano. Humanos respiram com ritmo. Aquilo parecia um saco cheio de água sendo apertado devagar.

Tapei os ouvidos, no entanto, o som continuou dentro da minha cabeça. Fechei os olhos e então as vi. Mil serpentes.

Enroladas umas nas outras dentro de mim, ocupando cada espaço vazio do corpo. Serpentes finas entrando pelas costelas. Serpentes cegas dormindo atrás dos meus olhos. Serpentes enormes apertando órgãos lentamente, como quem amadurece fruta antes da colheita.

E todas tinham meu rosto. Não exatamente meu rosto. Algo próximo disso. Como máscaras feitas cera de má qualidade. Uma delas abriu a boca. Lá dentro havia dentes humanos.

Percebi que estava no banheiro, gitanto, de joelhos diante do espelho. Minha testa sangrava. Eu devia ter batido nela enquanto cochilava. Ou talvez não estivesse dormindo.

O espelho estava coberto de marcas de dedos. Por dentro. Foi então que compreendi o verdadeiro horror.

As serpentes não estavam dentro de mim.

Eu é que estava dentro delas.

 

Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 26/07/2026
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