Há lugares onde as pessoas, sem perceber, expõem a própria alma. O empório é um desses lugares. As mesas são próximas o suficiente para que as conversas escapem das bordas da intimidade e cheguem, inevitavelmente, aos ouvidos alheios. Não é curiosidade, e sim a inevitabilidade do som.
À minha direita, uma mulher sozinha suspirava. À esquerda, um rapaz dizia em alto e bom som "já não fazia mais sentido insistir". Um casal dividia um pedaço de bolo enquanto cada um percorria, silenciosamente, a tela do próprio celular. Em outra mesa, duas amigas riam do rapaz que falava alto. Tudo acontecia com uma estranha naturalidade, como se vínculos fossem objetos de consumo, facilmente descartáveis quando deixavam de produzir encantamento imediato.
A psicologia moderna descreve um tempo em que a conexão nunca foi tão acessível, enquanto o sentimento de solidão nunca foi tão frequente. Pesquisas sobre apego mostram que carregamos, desde cedo, maneiras particulares de amar, de fugir, de depender ou de nos proteger. Muitos chegam aos relacionamentos esperando que o outro cure feridas que nem sequer conhece. Outros transformam qualquer proximidade em ameaça. Há quem confunda autonomia com ausência de compromisso e quem chame de liberdade aquilo que, no fundo, é medo.
Bauman, se observasse a cena , provavelmente reconheceria a metáfora perfeita da modernidade líquida. Tudo ali era provisório. Os pedidos, os encontros, as promessas e, sobretudo, os afetos. Vivemos numa cultura que celebra a possibilidade permanente da troca. O próximo restaurante, o próximo emprego, o próximo parceiro, a próxima versão de nós mesmos. A abundância de escolhas produziu uma escassez curiosa: a capacidade de permanecer.
Talvez o problema não seja a ausência de amor. Talvez seja a dificuldade crescente de suportar a profundidade que ele exige. O raso seduz porque não cobra mergulho. Nele, ninguém precisa enfrentar as próprias contradições, rever expectativas ou permanecer quando o encanto inicial cede lugar à realidade. O raso protege do sofrimento, mas também impede o encontro. É confortável viver na superfície, desde que se aceite nunca conhecer a temperatura das águas profundas.
Terminei o café enquanto as vozes continuavam circulando entre as mesas, misturadas ao aroma do pão recém-saído do forno e ao ruído discreto das xícaras. Saí com a impressão de que aquele empório vendia muito mais do que alimentos. Ali também se comercializavam versões apressadas do afeto, embaladas para consumo imediato.
E então a pergunta permaneceu comigo, como permanece agora com você: quando foi que deixamos de procurar alguém para construir uma história e passamos a procurar apenas alguém que não atrapalhasse a nossa pressa?