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Daniele Pereira
Escrever é uma forma de me conectar comigo mesma e, através das palavras, alcançar o outro.
Textos

O Perigo de Dar em Pé

Havia apenas um lugar disponível perto do motorista.Ao meu lado, no banco de trás, um amigo professor. Ele vagava o olhar pela estrada, em silêncio, enquanto eu me distraía com meu livro. O carro seguia, cheio de gente e de histórias, quando, de repente, parou.

Foi então que ouvi uma voz.

Uma voz familiar.

Levantei os olhos e, por um instante, voltei muitos anos no tempo. Eu era novamente uma pequena aluna. Ela, minha professora. A vida, entretanto, havia passado por nós duas. Ela entrou no carro com aquela delicada negociação que o corpo maduro impõe à gente. Um passo.

“Ui!”

Outro.

“Ai, meu joelho!”

Mais um movimento.

“Minha coluna!”

Eu já começava a reconhecer naquela sequência de gemidos a velha professora, embora agora a voz viesse acompanhada de uma coleção inteira de articulações ressentidas. Ela se ajeitou como pôde e, então, soltou, alto e bom som:

“Ei, dei demais em pé, meu filho!”

Foi o instante exato em que a língua portuguesa, essa senhora elegante e perigosíssima, decidiu fazer uma travessura. Ela queria dizer que havia dado aula demais em pé.

Era isso. Só isso. Mas havia um pequeno problema: o verbo dar.

Dar é um verbo generoso. Dá aula, dá conselho, dá trabalho, dá risada, dá problema. E, dependendo da frase, dá margem para interpretações que nenhum professor de língua portuguesa recomendaria em sala de aula.

Eu e o professor nos entreolhamos. Não podíamos rir. Era nossa antiga mestra. Havia respeito. Havia toda uma história entre aquela mulher e nossas primeiras letras.

Mas havia também aquela frase. “Dei demais em pé.” O professor baixou os olhos. Eu fingi uma concentração súbita no livro, enquando mordiscava meu lábio inferior. Nós dois lutávamos pela sobrevivência moral. Um código de honra entre professores.

Enquanto isso, o restante do carro não tinha qualquer compromisso com a compostura. O povo explodiu numa gargalhada sem piedade, dessas que começam numa pessoa e, quando se percebe, já tomaram o ambiente inteiro.

Ela ainda tentou explicar:“Dar aula! Eu dei aula demais em pé!”

Pronto. Era o que faltava. A gargalhada aumentou.

E eu pensei em como a vida é curiosa quando passa pela boca. A intenção é uma coisa. A palavra é outra. E a interpretação, essa criatura livre, faz o que bem entende.

Ela estava falando de décadas de profissão, de salas de aula, de alunos, de giz, de quadro, de uma vida inteira ensinando em pé. O verbo “dar” estava ali no seu sentido mais nobre: oferecer conhecimento.

Mas a frase, solta do contexto, encontrou outro caminho.

E talvez seja justamente aí que mora a graça da linguagem. As palavras não obedecem completamente a quem as pronuncia. Elas chegam aos outros carregadas de história, imaginação, malícia, memória e, às vezes, simplesmente de um senso de humor que ninguém conseguiu educar.

Aquela mulher havia passado anos ensinando português, matemática, história, sabe-se lá quantas matérias. E, naquele dia, sem perceber, deu uma aula prática sobre uma das maiores armadilhas da língua: o contexto.

Eu olhava para ela e pensava no tempo. Um dia, eu era a menina que recebia suas lições. Agora, eu também sou professora. E talvez essa seja a parte mais engraçada de tudo. A gente entra no magistério acreditando que vai ensinar os outros a compreender o mundo. Depois de alguns anos, descobre que o mundo é que passa o tempo inteiro nos ensinando.

Inclusive que, antes de dizer “dei demais em pé”, convém lembrar que há frases que precisam de uma explicação antes mesmo de terminarem.

Porque ser professora é isso.

A gente passa a vida dando aula.

Só precisa tomar cuidado para não dar duplo sentido junto.

Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 18/08/2026
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