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Daniele Pereira
Escrever é uma forma de me conectar comigo mesma e, através das palavras, alcançar o outro.
Textos

Era um dia normal. E “normal”, naquele caso, significava apenas que eu estava existindo sem maiores pretensões. Não pretendia mudar o curso da humanidade, só queria a coisa revolucionária chamada paz. Cheguei na sala e queria apenas me sentar na minha cadeira. Uma atividade aparentemente inocente.

 

Foi aí que o vi.  Um ser mandado do capeta. Não digo isso levianamente. Havia nele qualquer coisa de funcionário público do inferno, daqueles que perderam o crachá, mas mantiveram a função.

 

Eu me aproximei, queria nada de mais, apenas descansar. No entanto, ele olhou para mim com a segurança de quem jamais foi informado de que pode estar errado.

 

E então, com o romantismo de um pneu careca descendo uma ladeira, disse: “Estou esquentando a sua cadeira.”

Meu cérebro simplesmente não estava preparado para aquilo. “Estou esquentando a sua cadeira.” Era uma frase tão ruim que até a cadeira parecia desconfortável com a situação.

 

Pensei em defendê-la. Talvez ela tivesse direitos. Talvez a cadeira pudesse solicitar uma medida protetiva. Mas o homem estava ali, sorrindo, esperando o efeito devastador de sua cantada.

 

E havia naquele sorriso uma confiança comovente. A confiança dos ignorantes. Aquela espécie rara de coragem que nasce quando a pessoa não faz a menor ideia de como está sendo percebida.

 

Ele provavelmente imaginava que eu sorriria. Porque existe uma fantasia masculina bastante persistente de que toda abordagem é um presente. Como se a mulher estivesse circulando pelo mundo com uma placa invisível: “Favor interromper minha paz a qualquer momento.”

 

Então eu respondi. E foi bonito. Não para ele. Para mim.

 

Porque vi uma coisa que raramente testemunhamos na natureza: um homem ficando sem palavras diante de uma mulher que não entrou no roteiro que ele havia escrito para ela.

 

O sorriso perdeu altitude. A postura sofreu uma pequena falência. A segurança, coitada, pediu demissão sem aviso prévio. Ele quebrou. Não metaforicamente. Quebrou mesmo. Foi como assistir a uma loja baixando as portas em pleno horário comercial.

 

E eu quase tive pena.

 

Quase.

 

 

O que me incomodou não foi propriamente a cantada. Cantadas ruins fazem parte da fauna humana. Sempre existiram. Provavelmente continuarão existindo enquanto houver homens e cadeiras.

 

O que me incomodou foi a naturalidade da invasão. Aquele pequeno pressuposto de que ele podia chegar até mim e transformar meu espaço em palco para o próprio desejo.

 

É aí que a coisa deixa de ser engraçada. Porque nós aprendemos cedo a negociar centímetros.

 

A distância na calçada.

 

O banco do ônibus.

 

O elevador.

 

A mesa.

 

A roupa.

 

O olhar.

 

O tom da voz.

 

Até o modo de dizer “não”.

 

Aprendemos a recusar sem ferir.

 

A afastar sem provocar.

 

A colocar limites com a delicadeza de quem desarma uma bomba usando luvas de renda.

 

E ainda assim, muitas vezes, somos acusadas de exagero quando apenas queremos ficar em paz. Há homens que não percebem que o corpo feminino não é espaço público.

 

Que uma mulher não se torna disponível porque está sozinha.

 

Não está convidando ninguém porque sorriu.

 

Não está flertando porque foi educada.

 

Não está interessada porque respondeu.

 

E não deve uma recompensa emocional a quem decidiu abordá-la.

 

Talvez seja esse o detalhe que mais incomode.

 

Alguns homens não sabem lidar com uma mulher que não precisa deles para validar a própria existência. Uma mulher sentada, tranquila, ocupando a própria cadeira, pode parecer perigosamente independente para quem está acostumado a confundir atenção com autorização.

 

E então vem a velha pergunta: “Mas era só uma cantada.” Sim. Era.

 

E talvez justamente por ser “só uma cantada” a gente consiga enxergar com tanta nitidez a engrenagem. O pequeno abuso cotidiano. A invasão embrulhada em brincadeira.

A presunção perfumada. A expectativa de que a mulher sorria para não constranger o homem que a constrangeu.

 

O mundo tem uma curiosa preferência pela delicadeza quando é a mulher quem precisa suportar o desconforto. Naquele dia, porém, eu não sorri para salvar ninguém.

 

Respondi. Ele fechou a cara. E a cadeira continuou comigo.

 

No fim, fiquei pensando que há homens que passam a vida tentando ocupar lugares que ninguém lhes ofereceu. É preciso agir sabiamente, pois antes de tentar esquentar a cadeira de alguém, é preciso descobrir se a pessoa sequer convidou você para sentar.

 

 

 

Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 30/08/2026
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