Do nada:
— O cartaz do projeto foi arrancado?
— Como assim? Retiraram o cartaz?
— Eu não — respondi. — Deve ter caído, não?
— É... deve ser.
A conversa terminou ali. Mas a pergunta, não.
Na sala de aula, a epifania me alcançou enquanto eu explicava um conteúdo qualquer.
No fim de semana, a escola havia sido cedida a um grupo religioso. E, no corredor, estava afixado, o cartaz com a indicação de leitura da semana.
Tratava-se de um conto de terror. Para chamar a atenção dos alunos, duas mãos vermelhas, de unhas compridas e negras, quase estiletes, ocupavam boa parte da imagem. Abaixo, um convite:
“Leia aqui!” Um QR Code. E uma pergunta direta:
O que mais assusta: um fantasma ou a nossa própria consciência?
Na segunda-feira, restava apenas a marca da fita-crepe na parede.
O cartaz?
Vazio.
Foi então que a epifania latejou.
Evento religioso. Mãos vermelhas. Conto de terror.
O cartaz do diabo.
Não sei quem o arrancou. Talvez tenha caído, como sugerimos. Talvez alguém o tenha retirado por outro motivo qualquer. Mas a possibilidade, por si só, foi suficiente para me inquietar.
Até onde pode chegar o radicalismo religioso? Em que momento a preocupação com a aparência ocupa o lugar daquilo que realmente importa?
Há quem se vista de discursos sobre Deus enquanto alimenta, silenciosamente, o desprezo pelo outro. Há quem vigie imagens, palavras, livros e símbolos, mas se esqueça de vigiar o próprio coração. E talvez seja essa uma das formas mais perigosas de intolerância: aquela que se fantasia de virtude para não precisar reconhecer o próprio ódio.
O fanatismo pode ser tão assustador quanto o próprio diabo.
Aliás, talvez, na contemporaneidade, o diabo nem precise mais possuir ninguém. Há pessoas perfeitamente capazes de praticar o mal por conta própria e, depois, encontrar nele um culpado conveniente. Antes, diziam que o diabo possuía os homens. Hoje, às vezes, parece acontecer o contrário: nós o possuímos, moldamos, vestimos e usamos conforme nossas conveniências.
Talvez aquelas mãos vermelhas do cartaz nunca tenham sido o que havia de mais assustador naquele corredor.
Talvez a pergunta impressa nele já trouxesse, sem que eu percebesse, a resposta:
O que mais assusta: um fantasma ou a nossa própria consciência?
Penso que alguns fantasmas são muito menos perigosos do que aquilo que fazemos em nome de Deus quando deixamos de enxergar o outro.
Porque o mal nem sempre tem chifres, unhas negras ou mãos vermelhas.
Às vezes, ele tem mãos humanas.
E acredita, sinceramente, que está fazendo o bem.