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Daniele Pereira
Escrever é uma forma de me conectar comigo mesma e, através das palavras, alcançar o outro.
Textos

Cartaz do diabo

Do nada:

— O cartaz do projeto foi arrancado?

— Como assim? Retiraram o cartaz?

— Eu não — respondi. — Deve ter caído, não?

— É... deve ser.

A conversa terminou ali. Mas a pergunta, não.

Na sala de aula, a epifania me alcançou enquanto eu explicava um conteúdo qualquer.

No fim de semana, a escola havia sido cedida a um grupo religioso. E, no corredor, estava afixado, o cartaz com a indicação de leitura da semana.

Tratava-se de um conto de terror. Para chamar a atenção dos alunos, duas mãos vermelhas, de unhas compridas e negras, quase estiletes, ocupavam boa parte da imagem. Abaixo, um convite:

“Leia aqui!” Um QR Code. E uma pergunta direta:

O que mais assusta: um fantasma ou a nossa própria consciência?

Na segunda-feira, restava apenas a marca da fita-crepe na parede.

O cartaz?

Vazio.

Foi então que a epifania latejou.

Evento religioso. Mãos vermelhas. Conto de terror.

O cartaz do diabo.

Não sei quem o arrancou. Talvez tenha caído, como sugerimos. Talvez alguém o tenha retirado por outro motivo qualquer. Mas a possibilidade, por si só, foi suficiente para me inquietar.

Até onde pode chegar o radicalismo religioso? Em que momento a preocupação com a aparência ocupa o lugar daquilo que realmente importa?

Há quem se vista de discursos sobre Deus enquanto alimenta, silenciosamente, o desprezo pelo outro. Há quem vigie imagens, palavras, livros e símbolos, mas se esqueça de vigiar o próprio coração. E talvez seja essa uma das formas mais perigosas de intolerância: aquela que se fantasia de virtude para não precisar reconhecer o próprio ódio.

O fanatismo pode ser tão assustador quanto o próprio diabo.

Aliás, talvez, na contemporaneidade, o diabo nem precise mais possuir ninguém. Há pessoas perfeitamente capazes de praticar o mal por conta própria e, depois, encontrar nele um culpado conveniente. Antes, diziam que o diabo possuía os homens. Hoje, às vezes, parece acontecer o contrário: nós o possuímos, moldamos, vestimos e usamos conforme nossas conveniências.

Talvez aquelas mãos vermelhas do cartaz nunca tenham sido o que havia de mais assustador naquele corredor.

Talvez a pergunta impressa nele já trouxesse, sem que eu percebesse, a resposta:

O que mais assusta: um fantasma ou a nossa própria consciência?

Penso que alguns fantasmas são muito menos perigosos do que aquilo que fazemos em nome de Deus quando deixamos de enxergar o outro.

Porque o mal nem sempre tem chifres, unhas negras ou mãos vermelhas.

Às vezes, ele tem mãos humanas.

E acredita, sinceramente, que está fazendo o bem.

Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 14/09/2026
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