O STF, a escola e eu
Havia algo desconfortável naquela sessão do Supremo.
Não era apenas o que estava sendo discutido. Era a forma. As vozes que se atravessavam, as acusações, as palavras que pareciam ter esquecido, por alguns instantes, o peso do lugar onde estavam sendo ditas.
Assisti àquilo com um incômodo difícil de explicar.
Talvez porque existam lugares dos quais esperamos mais.
Não esperamos perfeição. Instituições são feitas de pessoas, e pessoas erram, discordam, exaltam-se. Mas há espaços que carregam uma responsabilidade maior justamente porque representam alguma coisa para além daqueles que os ocupam.
O Supremo representa a Justiça.
A escola, a educação.
Foi então que, depois de horas de tensão, ouvi a única mulher daquele plenário.
Cármen Lúcia falou em tristeza, consternação, intranquilidade. Disse que sentia vergonha.
Vergonha.
Foi essa palavra que me tirou do STF e me levou, imediatamente, para outro lugar.
A escola.
Eu também havia sentido vergonha.
Sou professora e, infelizmente, o desrespeito não é novidade. Já vi alunos desrespeitarem professores. Já presenciei palavras duras. Já vi colegas respirarem fundo, engolirem o choro e seguirem a aula porque ainda havia um conteúdo no quadro e outros tantos alunos esperando.
Não deveria ser normal.
Mas acontece.
Dessa vez, porém, havia alguma coisa diferente.
Pela primeira vez, vi o desrespeito partir de um gestor geral em direção a professores. E aquilo me atravessou de outro jeito.
Talvez porque seja doloroso demais ser desrespeitado por quem estamos tentando educar, mas há uma dor diferente quando o desrespeito vem de quem deveria compreender, mais do que ninguém, o valor de um educador.
Ali também havia um lugar do qual eu esperava mais.
E senti vergonha.
Não vergonha de ser professora. Nunca.
Não vergonha dos meus colegas.
Vergonha da cena.
Vergonha de perceber que, por alguns instantes, a escola parecia ter esquecido aquilo que todos os dias tenta ensinar aos seus alunos: respeito.
Foi então que a fala daquela mulher no STF fez ainda mais sentido para mim. Guardadas todas as proporções, talvez Cármen Lúcia e eu estivéssemos olhando para coisas muito diferentes e sentindo algo muito parecido.
Ela, ministra, olhava para a instituição à qual pertence e lamentava que o Judiciário, que deveria oferecer serenidade, tivesse produzido intranquilidade.
Eu, professora, olhava para a instituição à qual pertenço e pensava: se ensinamos respeito, como podemos aceitar o desrespeito entre aqueles que deveriam ensiná-lo?
Talvez a vergonha apareça justamente quando ainda acreditamos.
Quem não espera nada de uma instituição não se decepciona com ela.
Quem não acredita na escola talvez passe por uma cena dessas e simplesmente vá embora.
Mas eu acredito.
Acredito tanto que doeu. Porque uma escola educa mesmo quando ninguém está diante do quadro.
Educa no corredor.
Educa numa reunião.
Educa na maneira como um gestor se dirige a um professor.
Educa na forma como um professor trata um aluno.
Educa quando alguém discorda e, ainda assim, escolhe respeitar.
E também educa quando faz exatamente o contrário.
Talvez tenha sido isso que mais me incomodou naquela cena: perceber que os nossos discursos podem ensinar uma coisa enquanto nossas atitudes ensinam outra completamente diferente.
Naquela sessão do Supremo, entre tantas vozes masculinas, foi justamente a única mulher do plenário quem escolheu transformar o desconforto em reflexão.
Na escola, depois do que vi, fiz silenciosamente a mesma coisa.
Olhei para o lugar onde trabalho, para aquilo em que acredito e para a professora que ainda quero continuar sendo.
E percebi que sentir vergonha não é necessariamente uma fraqueza.
Às vezes, a vergonha é uma espécie de consciência.
É alguma coisa dentro de nós dizendo:
isso não deveria ter acontecido.
Talvez o verdadeiro perigo comece quando cenas assim deixam de nos incomodar. Quando o desrespeito vira rotina. Quando a autoridade se confunde com o direito de humilhar. Quando quem presencia prefere silenciar. Quando aquilo que ontem nos causaria indignação passa a ser tratado apenas como “mais uma situação”.
Continuo acreditando na escola.
Talvez seja exatamente por isso que naquele dia senti tanta vergonha.
E, desde então, uma pergunta não me deixa em paz:
se aqueles que ocupam lugares de autoridade esquecem o respeito que esses lugares exigem, que exemplo sobra para aqueles que ainda estamos tentando educar?
A aproximação aqui não afirma que os dois episódios sejam equivalentes; ela nasce da experiência comum de pertencer a uma instituição, acreditar no que ela representa e sentir constrangimento quando as atitudes dentro dela contradizem seus próprios valores.