O que ainda responde em nós
Da primeira vez, eu era uma jovenzinha. Trazia um frio na barriga e o medo de ter escolhido errado. E se aquilo não fosse para mim? E se, depois de tanto querer chegar, eu descobrisse que precisava partir?
Doze anos depois, voltei. Já adulta, reconheci o frio antes de reconhecer o caminho. Achei curioso que o corpo guardasse tão bem uma sensação enquanto eu havia esquecido tantas outras coisas.
De longe, vi um professor. Ele me olhou, tornou a olhar e sorriu. Havia naquele sorriso um acolhimento antigo, um silencioso “que bom que você veio”. Por um instante, deixei de me sentir visita.
Segui até a minha antiga sala. O percurso parecia menor. Ou talvez, naquela primeira vez, o medo tivesse aumentado as distâncias. Procurei nos corredores as vozes amigas, os lugares prediletos, as resenhas que começavam por qualquer motivo e se demoravam como se ninguém tivesse para onde ir. E não foram poucas. Naquele tempo, a gente ainda não sabia que uma conversa qualquer poderia fazer falta tantos anos depois.
Tudo havia mudado. Até o que permanecia no mesmo lugar parecia diferente. Eu olhava as portas, as paredes, tentando encontrar nelas alguma coisa que confirmasse a minha lembrança. Mas a memória tinha conservado um mundo inteiro que já não cabia ali. Faltavam pessoas. Faltava a maneira como a luz nos alcançava quando ainda tínhamos certas certezas. Faltava, sobretudo, quem eu era.
Ao sair das salas e chegar à porta da biblioteca, ouvi:
— Dandam?
Meu apelido atravessou o corredor, e eu me virei com uma alegria que não precisei aprender de novo. Era ele. Também havia voltado ao nosso lugar predileto.
Doze anos depois, tão diferentes, sorrimos com a mesma alegria. Por alguns segundos, não houve distância entre a última conversa e aquele encontro.
Depois, o tempo voltou a existir. Estava nos nossos rostos, nas histórias que ainda precisaríamos contar, em tudo o que tínhamos vivido longe dali. Mas aquela voz me alcançara com uma facilidade comovente.
Saí pensando que talvez voltar seja isso: perceber o quanto mudamos e, ainda assim, ouvir um nome antigo e saber que ele continua sendo nosso.