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Daniele Pereira
Escrever é uma forma de me conectar comigo mesma e, através das palavras, alcançar o outro.
Textos

A hora em que fingi dormir

Aos seis anos, cometi um delito doméstico: fingi dormir para assistir a O Feitiço de Áquila. Haviam decidido que o filme não era apropriado pra mim. Então, eu precisava ir dormir.

Havia, naquela ordem, a segurança das mulheres que conheciam o mundo. Mas dizer que eu não podia ver alguma coisa era também me informar de que existia alguma coisa para ser vista.

Friamente...

Fechei os olhos.

Esperei.

Não sei quanto tempo é necessário para convencer uma mãe de que uma filha dormiu. Naquela noite, pareceu uma eternidade. Aprendi que fingir dava trabalho. Dormir teria sido muito mais simples, mas eu já estava comprometida com a desobediência.

Coloquei o lençol cuidadosamente e pude entreabrir os olhos.

É assim que guardo aquela noite: Talvez a memória tenha alterado muita coisa, mas do medo, lembro. Não esqueço o medo, a claridade da tela e o esforço para olhar sem ser percebida.

Um homem se transformava em lobo. Uma mulher, em falcão. Eu acompanhava aquilo com o desconforto de quem havia descoberto as falhas nas regras do mundo. Até então, as pessoas podiam sair, adoecer, ficar zangadas. Continuavam pessoas. A possibilidade de um rosto conhecido desaparecer dentro de um animal era uma espécie de desamparo para a qual eu não tinha preparo.

Quem ficava ali, depois da transformação? O homem ainda sabia que era homem? A mulher conseguia pensar com aquela cabeça de ave? E se esquecessem de voltar?

Não sei se formulei essas perguntas. Provavelmente senti tudo de uma vez, como as crianças sentem antes de aprender a separar as coisas pelos nomes.

Havia ainda a maldição. Alguma coisa podia acontecer ao nosso corpo sem a nossa permissão. Na pequena ordem da minha infância, isso era assustador: eu dependia de que os adultos soubessem impedir o pior. O filme sugeria que talvez nem eles pudessem.

Pensei em fechar os olhos de verdade.

Mas minha curiosidade tinha me levado longe demais. E havia uma dificuldade adicional: eu não podia pedir ajuda. Para dizer que estava com medo, precisaria confessar meu delito. Permaneci quieta, sustentando a mentira.

Hoje acho comovente essa menina que poderia ter chamado a mãe e preferiu negociar em silêncio com o próprio medo. Na ocasião, eu devia apenas temer a bronca. A adulta é que insiste em procurar, naquele pequeno gesto, os primeiros ensaios de uma vida inteira: querer alguma coisa, ultrapassar um limite, descobrir que o desejo também nos deixa responsáveis pelo que encontramos.

O que mais me perturbou, porém, foi mesmo sem maturidade, compreender que o tempo que devolvia um retirava o outro.

Aos seis anos, vi um personagem guardar por dentro uma voz que o outro já não pode ouvir.

Minha mãe e minhas tias tinham razão. Eu era pequena. Levei para dentro de mim imagens que não sabia onde guardar. Naquela noite, o escuro depois da televisão já não era o mesmo escuro de antes.

Cresci.

Tornei-me escritora de terror.

Às vezes, penso naquele quarto quando alguém me pergunta de onde vêm as coisas que escrevo. Poderia falar das leituras, das inquietações, do que observo nas pessoas. Tudo isso seria verdade.

Mas talvez uma parte da resposta esteja debaixo daquele lençol, no instante em que descobri que podia continuar olhando, mesmo apavorada.

Ainda faço isso quando escrevo.

Acompanho uma personagem até o lugar em que eu mesma hesitaria em entrar. Deixo que abra a porta. Espero com ela pelo ruído seguinte. E, quando poderia encerrar a cena, permaneço mais um pouco. Preciso saber o que acontece depois que alguém perde a última certeza que tinha.

Quem sabe tenha sido daquele medo que nasceu a escritora que sou. Da necessidade de voltar ao que me perturbava, examinar de perto, encontrar palavras para aquilo que, durante tanto tempo, só soube sentir.

Escrever me deu uma liberdade que eu não tinha naquela sala. Posso interromper uma transformação. Posso fazer alguém chegar a tempo. Posso devolver uma pessoa a quem a espera.

O difícil é perceber quantas vezes não faço isso.

Fico diante da página, com a possibilidade de salvar alguém, e escrevo a frase que o condena. Depois volto, releio, procuro uma palavra mais precisa. Trabalho até que a dor pareça verdadeira.

Há noites em que essa parte do ofício me assusta mais do que a história.

Penso na menina que queria apenas que os dois voltassem ao mesmo tempo. Não sei se ela entenderia a mulher que me tornei. Talvez me pedisse que mudasse o final. Talvez dissesse que já chega, que alguém precisa fazer alguma coisa.

Eu poderia.

Mas continuo escrevendo.

Naquela sala, eu ainda esperava que alguém impedisse o pior.

Hoje, o pior espera que eu termine a frase.

Daniele Pereira
Enviado por Daniele Pereira em 27/10/2026
Alterado em 27/10/2026
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